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Entrevista
– Psicóloga Marisa Helena
Dia das Crianças ou Dia do Consumo?
Por Keka Werneck, da Assessoria de Imprensa do Centro Burnier Fé e
Justiça
Vai chegando o Dia das Crianças – 12 de outubro - e aumenta na mídia o
bombardeio de propagandas apresentando brinquedos caros e sofisticados.
É boneca que come, carrinho que vira cambalhota, jogos virtuais 3D, uma
infinidade de opções. A meninada fica louca de vontade de ter um desses
e entra em um processo repetitivo do “eu quero, compra pra mim”. Mas,
conforme a psicóloga Marisa Helena, mestre em psicologia, conselheira do
Conselho Regional de Psicologia (CRP) em Mato Grosso e assessora
pedagógica do
Studium Eclesiástico Dom Aquino Corrêa (SEDAC),
a maioria dos pais não pode comprá-los, mesmo se quisesse, e, na
verdade, na opinião dela, nenhum deles, nem os que podem, deve atender,
subservientes, a essas imposições comerciais. Então, o que fazer para
evitar a frustração infantil? E o que fazer para evitar a frustração dos
pais também?
Leia a entrevista.
Vai chegando o Dia das Crianças e o presente surge como imposição. O que
esse presente simboliza?
A idéia do presente é uma construção social e comercial. Assim como
outras datas, Dia das Mães, Dia dos Pais e outras. A data, nesse caso,
existe para ressaltar a importância da criança, que historicamente não
teve esse espaço social que tem hoje. Esse é o papel fundamental da
data. Mas, por outro lado, temos que refletir sobre a forma que estamos
comemorando isso, porque estamos fazendo isso pela vertente comercial.
Agora, tem mais uma coisa: não são todos os pais que podem comprar
presentes.
E isso gera frustração mais nos pais ou nas crianças?
Às vezes muito mais nos pais. A criança se satisfaz com pouco. Ela não
tem tanta noção de valor material.
O que a propaganda faz nesse período que mexe com o psiquismo?
Ela vai produzir na criança e nos pais o desejo de consumir algo, que,
de modo geral, é caro.
Mas somente a propaganda é responsável por essa situação?
Não. A questão é social, mas a propaganda se apropria dos desejos
construídos socialmente, dentro do sistema capitalista de consumo.
E como fugir disso?
É importante comemorar a data, refletir sobre a importância da infância,
desta fase tão importante para o desenvolvimento humano, refletir sobre
quem é essa criança hoje, qual o seu lugar social. E verificar que ela
está insuflada por desejos, porque ela não chega pedindo qualquer coisa.
Ela chega pedindo brinquedos caros, videogame, bicicleta...
O que os pais devem fazer? Importante não deixar a data passar em branco, tem que conversar com os filhos sobre a importância da data, sobre a importância do respeito pela criança e, ao invés de atender aos apelos comerciais, mesmo se puder comprar, os pais podem oferecer outra coisa, que não seja propriamente um presente, mas uma lembrança. Pode ser também uma carta, um bolo e um dia inteiro junto, conversando, passeando, oferecendo seu carinho. Para conseguir essa mudança, os pais precisam construir, com segurança, um discurso diferente do proposto pela mídia comercial. |