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Entrevista com Dráuzio
Varela.
ÉPOCA
- O Ministério da Saúde elegeu oito plantas às quais se atribui alguma
atividade e passou a distribuí-las no SUS.
São
elas: alcachofra, aroeira, cáscara sagrada, garra do diabo,
guaco, isoflavona da soja e unha de gato.
Isso é ruim?
Drauzio - Que tipo de medicina o governo cria com uma medida como
essa? Ele institui duas medicinas: a do rico e a do pobre. As
pessoas que têm acesso ao atendimento de saúde vão a médicos e compram
remédios em farmácia. O que o governo fez foi criar uma
medicina para pobres baseada em plantas que não têm
atividade demonstrada cientificamente. Quando dizem que determinada
planta tem atividade isso significa que em tubo de ensaio ela demonstrou
ter determinada ação. Mas isso não basta. Para ter ação comprovada
em seres humanos, falta muita coisa...
Vocês podem consultar a íntegra da entrevista pelo endereço:
http://revistaepoca.globo.com/EditoraGlobo2/Materia/exibir.ssp?materiaId=162899&secaoId=15230
VEJAM AGORA
UM POSICIONAMENTO COM RELAÇÃO À REPORTAGEM:
Prof. Douglas
Carrara - Sou antropólogo e pesquisador de medicina popular e
fitoterapia há vários anos no Brasil. Imaginem a surpresa e a indignação
ao ler a matéria na revista Época de Agosto/2010 sobre a prática da
fitoterapia no serviço público no Brasil. No entanto é necessário
agradecer ao Dr. Dráuzio Varella pela iniciativa. Agora temos um
representante da indústria farmacêutica
com quem dialogar. Sinal dos tempos! A fitoterapia e o projeto Farmácias
Vivas já começam a incomodar e a causar prejuízos à
indústria farmacêutica ...
Analisando os países mais avançados do mundo e que utilizam em grande
escala os medicamentos produzidos pela indústria
farmacêutica, verificamos que os resultados obtidos pela medicina
considerada científica são pífios.
Os Estados Unidos
possuem os índices de câncer de mama e de próstata mais elevados do
mundo. Em 1993 havia nos EUA, 8 milhões de diabéticos, uma das mais
altas do mundo. Com relação às doenças cardio-vasculares também os
americanos são campeões. Nesse país onde se utiliza a "medicina de
rico", no entender esclarecido do Dr. Dráuzio Varella, os pacientes
são tratados com medicamentos de última geração e equipamentos
modernos de alto custo. Investe-se muito em medicina e quase nada em
saúde da
população.
Por outro lado, nos países onde se pratica a "medicina de pobre", para
citar novamente o ilustre médico Dr. Dráuzio Varella, os
índices de doenças degenerativas, tais como, cânceres,
doenças cardio-vasculares, diabetes, são baixíssimos.
Nos EUA, ocorrem
120 casos de câncer de mama por 100.000 habitantes, enquanto na
China apenas 20. Inclusive as imigrantes chinesas que vivem nos
Estados Unidos, acabam atingindo os índices absurdos e epidêmicos da
população americana.
Em São Francisco,
a cada ano surgem 160 casos de câncer de mama por 100.000
habitantes que migraram da cidade de Xangai, na China, enquanto, na
mesma faixa etária, as que permaneceram, apenas 40 casos surgiram da
mesma doença.
Portanto a medicina avançada dos países do primeiro mundo não colabora
em nada para promover a saúde de seus habitantes. Por que então
importarmos a mesma medicina que não se preocupa com a promoção da saúde
e que parece considerar a doença um negócio melhor do que a saúde?
O que diferencia
as populações dos países asiáticos é a prática de terapêuticas de origem
milenar: fitoterapia, acupuntura, shiatsu,
assim como os medicamentos alopáticos, sempre que necessário.
Portanto, Dr. Dráuzio Varella, que modelo de medicina devemos
escolher e utilizar no tratamento das doenças da população brasileira de
baixa renda? O modelo americano ou o asiático?
Como confiamos na
sua boa formação matemática e que as estatísticas epidemiológicas não
são mentirosas, o melhor caminho para o Brasil forçosamente terá
que ser o modelo asiático.
Mesmo sabendo que todos os profissionais da saúde,
pesquisadores, fitoquímicos, fitofarmacologistas, etnobotânicos,
farmacêuticos,
fitoterapeutas e antropólogos da saúde são ignorantes, segundo a douta
opinião do Dr. Dráuzio Varella, acreditamos que um dia vamos conseguir
atingir os índices baixos de morbidade obtidos atualmente pelos países
asiáticos.
Para melhorar o nível de nossos profissionais, pesquisadores da área de
plantas medicinais, basta que o próprio governo aumente as verbas para
pesquisa com plantas medicinais, que há séculos vem sendo
utilizadas sem nenhum apoio do governo no tratamento de seus problemas
de saúde pela população pobre, sem recursos, que conta apenas com a
experiência de seus ancestrais para tratar de suas doenças. Esta é a
realidade da nossa população humilde de interior, cujos serviços
de saúde, todos sabemos, são precários e péssimos.
Imagine o Dr. Dráuzio Varella, se a população simples do interior
não possuísse nenhum conhecimento da ação das plantas medicinais.
Se toda vez que alguém adoecesse tivesse que procurar o serviço de saúde
de seu município. Imagine o caos que seria. Em primeiro lugar,
porque a maioria dos médicos está concentrada nas capitais dos estados.
Em segundo lugar, porque na medida em que nos afastamos dos grandes
centros, os recursos na área da saúde diminuem. E por isso faltam
medicamentos, faltam leitos de hospital, faltam médicos e enfermeiros.
Ainda assim os poucos profissionais que existem no interior foram
mal formados na faculdade. As faculdades atualmente se preocupam em
formar médicos especialistas em monitoramento de UTI's.
Enfim são formados para exercer a "medicina de rico". São
pouquíssimos os médicos clínicos disponíveis capacitados para
receitar fitoterápicos, mesmo porque não se estuda fitoterapia
nas faculdades de medicina no Brasil! E muito menos dispomos de
faculdade de fitoterapia, tais como, as que existem na Inglaterra, na
França, na Índia, na China.
Não estranhamos, portanto que o Dr. Dráuzio Varella, tenha
encontrado muita ignorância nos projetos de Farmácias Vivas
estabelecidos em diversas regiões do país. Há, na verdade, uma carência
muito grande pesquisas na área de plantas medicinais no
Brasil.
Por outro lado, a
ignorância encontrada pelo ilustre médico não é decorrente do descaso ou
por falta de amor pelo paciente. Além
de não ter recebido nenhuma informação, e, muito menos formação, na
faculdade onde estudou, o médico que atua nos atendimentos fitoterápicos
não dispõe de nenhum apoio logístico. Para praticar a fitoterapia
as informações são escassas e mesmo as pesquisas que a Universidade
brasileira promove, que o Dr. Drázio Varella, se referiu com tanto
desprezo, dificilmente chegam ao seu conhecimento.
Portanto tudo o que o douto Dráuzio Varella considera idiotices
são deficiências que ocorrem em um país que até hoje escolheu o
modelo da "medicina rica" que promove a doença e não investe na saúde da
população. Ao acusar um médico que receita fitoterápicos de idiota,
porque não conhece farmacologia, teria que acusar também os demais
médicos brasileiros que também não conhecem, porque todos sabemos
que a farmacologia moderna é uma caixa preta, cujo conhecimento é de
domínio exclusivo dos grandes laboratórios. Para o médico chega
apenas a bula dos medicamentos...
Mas agora sabemos que o único cidadão brasileiro que não é idiota e
que sabe farmacologia em profundidade é o Dr. Dráuzio Varella,
porque provavelmente recebeu informações confidenciais dos
grandes laboratórios e pode falar com conhecimento de causa. Como
percebeu a deficiência na formação dos médicos que entrevistou, vai
agora colaborar e esclarecer e orientar os idiotas, profissionais
de saúde, que atuam nos projetos de Farmácias Vivas, idealizado pelo
provavelmente também idiota, Dr. Francisco José de Abreu Matos,
farmacêutico químico e professor da Universidade Federal do Ceará,
infelizmente falecido em 2008. Se estivesse vivo com certeza
explicaria as dificuldades para desenvolver e implantar o projeto de
Farmácias Vivas no Ceará, com uma experiência profissional de 50
anos.
Sabemos que, segundo o Aurélio, idiota é um indivíduo pouco
inteligente, estúpido, ignorante, imbecil e em alguns casos, até
mesmo, uma categoria psiquiátrica, a idiotia. Portanto não
consideramos correto e muito menos ético, considerar idiotas inúmeros
profissionais da área da saúde, que atuam nos projetos de
Farmácias Vivas no Brasil. As deficiências por ventura encontradas pelo
ilustre médico deveriam, com certeza, ser avaliadas, mas
evidentemente com o respeito que qualquer indivíduo merece, independente
de sua formação intelectual.
Quanto à experimentação dos fitoterápicos, a que o Dr. Drázio
Varella se referiu, gostaríamos de questionar porque inúmeros
medicamentos alopáticos são proibidos e retirados do mercado, após
causar inúmeros danos aos pacientes. Por acaso a talidomida que gerou
inúmeras crianças defeituosas no mundo inteiro foi submetida a
experimentação científica antes de ser colocada á venda no mercado?
Quantos aditivos e demais produtos químicos são colocados no
mercado, expondo seres humanos e seres vivos aos seus efeitos
cancerígenos que somente são percebidos depois que contaminaram todo
o planeta. Basta lembrar dos PCB's, os bifenilos policlorados,
óleo conhecido no Brasil como ascarel, que quando foram produzidos em
1929 não se sabia nada de seus efeitos altamente nocivos para os seres
vivos e para o meio ambiente.
Sua fabricação foi proibida em 1976, mas os efeitos maléficos
cumulativos e persistentes que atingiram toda a cadeia alimentar do
planeta, não. A contaminação continua até os dias de hoje e,
provavelmente o ilustre médico Dr. Dráuzio Varella também deve estar
contaminado com PCB's, o que explicaria sua atitude pouco ou nada
cortês com demais indivíduos de sua espécie. Este é apenas um
trágico exemplo, mas existem mais de 800 aditivos químicos ainda não
estudados utilizados na fabricação de alimentos. São proibidos apenas
quando, após experiências com animais, se descobre que são
cancerígenos. Nesse caso, as cobaias não foram os pobres
camondongos, foram os seres humanos que, sem serem
consultados, foram submetidos à experimentação.
Também consideramos necessário experimentar previamente as plantas
medicinais. Os ensaios toxicológicos são evidentemente necessários,
inclusive para estabelecer uma posologia adequada para um possível
atendimento fitoterápico. Por outro lado, a etnobotãnica e a
antropologia da saúde fornecem uma contribuição muito importante
para a ciência ao estudar o conhecimento de raizeiros e pajés
indígenas que conhecem os efeitos de cada planta a partir da
experiência recebida de seus ancestrais e da utilização da planta
por si mesmo.
Podemos dispor desse modo de uma informação preciosa a respeito de
plantas potencialmente tóxicas e perigosas. Na verdade tudo o
que sabemos de cada planta considerada medicinal, tem origem na
medicina popular, indígena, ou através dos conhecimentos trazidos
pelas etnias africanas introduzidas no Brasil como escravos desde o
início do processo de conquista e colonização do Brasil.
Na verdade todas as plantas medicinais estudadas pela Universidade no
Brasil são oriundas da medicina popular. Não existe nenhuma planta
medicinal cujo conhecimento não seja difundido entre a população.
Portanto quem decide o que estudar em termos de ação medicinal, são os
intelectuais existentes nas comunidades simples do interior brasileiro,
os raizeiros, os mateiros, as parteiras, os rezadores, os umbandistas,
os curadores de cobra, etc. São eles que informam aos
etnobotânicos e antropólogos da saúde o que vale a pena estudar no
reino vegetal. Se não fosse assim porque a Universidade iria formar
etnobotânicos, etnofarmacologistas, especialistas em estudar o
pensamento médico popular, com o objetivo de encontrar
plantas, com grande potencial terapêutico. E tal fato vem acontecendo
no mundo inteiro. A planta medicinal, Stevia rebaudiana
foi descoberta pelos índios guarani do Paraguai e classificada
pelo cientista suíço Moisés Bertoni. Pois bem, a estévia é um adoçante
300 vezes mais potente do que o açúcar de cana e não produz diabetes.
Não por acaso foi proibido o seu uso nos Estados Unidos!
Assim necessitamos cada vez mais reduzir nossa ignorância aprendendo
com quem sabe: os praticantes da medicina popular, porque ninguém
é totalmente sábio ou totalmente ignorante. O acesso ao saber é um
processo contínuo de busca e por isso para deixar de ser ignorante
é necessário trilhar sempre o caminho da pesquisa e humildemente
reconhecer que, mesmo quando avançamos, sabemos apenas que sabemos
pouco ou quase nada.
Entretanto quando
julgamos os que realmente pesquisam e buscam o conhecimento,
totalmente ignorantes e idiotas, estamos reconhecendo que nada
sabemos do que necessita ser conhecido.
Pelo menos o Dr. Dráuzio Varella reconheceu que o
atendimento fitoterápico é profundamente diferente do atendimento
alopático. O
médico fitoterapeuta escuta durante muito tempo as queixas e
o histórico do paciente e faz uma anamnese correta e completa.
Nenhuma novidade nisso. Todo médico deve fazer isso. "O doente vai ao
médico e ele nem olha na cara", segundo Dr. Dráuzio Varella. Realmente
esta é a realidade da "medicina de rico" aplicada ao pobre. O
médico de formação alopata não olha o paciente, porque não
necessita individualizar o paciente, basta receitar um analgésico
ou antibiótico qualquer, para despedir seu paciente. Este é o
modelo que o Dr. Dráuzio Varella defende em sua entrevista. Parabéns
pela inteligência do Dr. Dráuzio Varella!
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