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Entrevista com Antônio Cavalcante Filho, o “Ceará”
`Para ser candidato,
tem que ter caráter e projeto político”, diz Ceará
O que vale até agora
é que esse pessoal não vai poder concorrer a um cargo público eletivo
porque, em algum momento da vida, furtou o erário, formou quadrilha ou
praticou crimes que os descredenciam ao pleito.
Essa Lei abriu a
temporada de faxina popular no sistema político brasileiro. E talvez só
o tempo vá mostrar com clareza as grandes repercussões que ela trouxe e
ainda trará. (Apesar da indecisão do Supremo Tribunal Federal (STF),
que, semana passada, após dois dias de plenária, deixou o Brasil sem uma
resposta quanto à validade desta Lei – se vale para esta ou para a
próxima eleição.)
Tem muita gente por
aí sem dormir direito, assombrada por erros pregressos, que outrora não
eram problema algum.
A Lei da Ficha limpa
não caiu do céu.
O Movimento de
Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), em 10 anos de luta pelo Brasil a
fora, é que articulou tudo isso.
O coordenador do MCCE
em Mato Grosso, Antônio Cavalcante Filho, 53 anos, o “Ceará”, explica
que esse Movimento fortalece a luta pela moralização das eleições e do
país.
Ceará tem apenas o
primeiro grau completo e é funcionário na subsede de Cuiabá do Sindicato
dos Trabalhadores no Ensino Público de Mato Grosso.
Nesta entrevista, ele
fala sobre a necessidade de avançarmos, enquanto sociedade, para uma
ampla reforma política, porque só assim teremos a opção de votar em
homens públicos que façam juz à etimologia da palavra candidato, que vem
do latim e significa puro, cândido e limpo.
Leia a entrevista.
A Lei da Ficha Limpa
já barrou 242 candidaturas no país. Em MT, foram cinco. Além disso,
sabe-se que há muita gente sem dormir por causa dessa lei, que o povo
acolheu e parece que pegou. Isso em si já é um enorme ganho à chamada
democracia representativa?
Sem dúvida é um
ganho. E a importância dela não é regional, mas nacional. Em nível
nacional, muitos candidatos inclusive desistiram do pleito, com medo de
serem punidos. Muitos políticos durante muitos anos gastaram muito
dinheiro com advocacia para não serem cassados, mas essa lei criou um
interessante gatilho. O candidato que antes fazia de tudo para manter o
processo engavetado agora precisa que seja julgado. Ele precisa ser
condenado ou absolvido, e os tribunais se veem obrigados a dar
prioridade a isso.
O que mais é preciso
para essa lei valer de fato?
São muitos candidatos
questionando a validade da lei. Essa decisão do STF, que irá julgar o
primeiro caso em última instância, será emblemática, porque vai criar
jurisprudência. Quais são as candidaturas mais visadas em MT e que são acompanhadas pela luta contra a corrupção? Em Mato Grosso, temos mais ou menos seis candidatos que correm o risco de terem seus votos anulados e seus diplomas casados com base na Lei da Ficha Limpa. São eles: Pedro Henry (PP), Carlos Bezerra (PMDB), Gilmar Fabris (Dem), Jaime Marques (PP), Oscar Bezerra (PSB), e Willian Dias (PSDB). Além desses, Chica Nunes (Dem), Eliene Lima (PP), e José Riva (PP), correm serios risco de serem punido pela no Lei. Nós do MCCE, não agimos movidos por questões pessoais contra ninguém. Toda vez que o MCCE faz alguma representação, para nós não tem importância quem seja, nem o partido. Propomo-nos apenas ser fiscais da lei para que ela seja aplicada em sua plenitude. Afinal foram mais 1 milhão e 133 mil assinaturas de populares para pressionar a criação da Lei de Combate à Corrupção Eleitoral, a Lei 9.840. Para a Lei da Ficha Limpa, colhemos mais de 1 milhão e 600 mil assinaturas no formulário e quase 2 milhões de pessoas assinaram eletronicamente. Portanto ao todo foram quase 4 milhões de apoios.
Fala-se que o povo
brasileiro vota mal. Isso é calúnia? O que é preciso para votar certo?
Não se pode fazer
esse tipo de afirmação. Alguns fatores levam o povo a votar neste ou
naquele candidato. Na verdade grande parcela de eleitores é mal
informada por culpa da mídia. Formadores de opinião, que acessam
internet, é que têm conhecimento dos processos que essas pessoas
respondem, porque elas têm se protegido, se escudado. Por exemplo:
poucos são os jornais e site, televisões e rádios que têm divulgado
nesses últimos 10 anos o moroso escândalo da Assembleia Legislativa de
Mato Grosso. Daí parte da população não terem se indignado contra esses
candidatos, que, contando com a desinformação, usam verdadeira máquina
eleitoral financeira para continuar obtendo bons resultados, mesmo
respondendo a tantos processos. Estamos tentando mudar isso, fazendo
palestras em escolas da rede estadual. E a gente encontra pessoas que
simplesmente não estão sabendo dos escândalos e, quando sabem, ficam
horrorizadas, com tanto desvio de dinheiro, formação de quadrilha e
outros crimes. E a pergunta imediata é: por que esses caras não estão na
cadeia? É difícil desmontar esse esquema histórico.
Trabalhar para
corrigir o sistema político não é, como se diz no ditado popular, passar
verniz em pau podre?
O MCCE já está
trabalhando uma proposta de reforma política, usando as experiências dos
últimos 10 anos. Uma reforma mais profunda e mais ampla que venha
corrigir distorções históricas do processo eleitoral. Não sei se vai dar
para entregar ano que vem, porque não é fácil colher milhares de
assinatura. Mas, se o Congresso Nacional não faz, o povo irá fazer. E
qual é a finalidade disso? Resgatar a boa política, que no dicionário
Aurélio, quer dizer a arte de bem governar os povos, conduzindo-os à
felicidade. Eu sempre pergunto nas palestras que faço. Você sabe o que
significa candidato? As pessoas param para pensar e sempre dizem que são
pessoas interessadas em participar de alguma eleição de alguma coisa.
Mas é simples. Candidato vem do latim, da Roma antiga, e significa cor
do leite, cândido, limpo. Ou seja, se ele é sujo não pode ser cândido.
Então, o que estamos propondo é o resgate do verdadeiro sentido da
palavra candidato. Pesquisadores que estudam a antiga Roma, o Império
Romano, contam que esses cândidos candidatos saíam às ruas em busca de
apoio, vestidos de túnica branca, o que simbolizava que eram puros.
Qualquer cidadão que conhecesse algum fato de desabonasse poderia pegar
lama no chão e atirar na túnica. A Ficha Limpa vem fazer isso: mostrar a
mancha, claro que não mais com barro.
Qual sua opinião
sobre o voto nulo?
O voto nulo, branco e
até mesmo abstenção podem ser sim um voto consciente, quando os partidos
não respeitam o cidadão e aprovam qualquer candidato sem levar em conta
a questão do caráter, sem levar em conta a vida pregressa dele e o
cidadão fica sem opção. E a abstenção é quando o cidadão rejeita não
apenas os candidatos, mas até mesmo o próprio sistema. Aí ele não
participa do processo para dizer eu não aceito isso, o sistema está
podre. Não vou respaldá-lo se ele não me serve.
E o voto obrigatório?
Essa reflexão é algo
que tem que vir com a reforma política. O voto deveria ser facultativo.
Muitos políticos
fazem o discurso contra a corrupção durante o período eleitoral. Como
diferenciar entre o que é verdade do que é falácia?
O eleitor tem que
procurar se informar, ler, estudar, pesquisar. Mas hoje tem uma
resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), além da Lei da Ficha
Limpa, obrigando todos os candidatos a apresentarem sua ficha junto com
registro da candidatura. (Veja situação dos candidatos
AQUI)
A corrupção leva
quanto dos cofres públicos no Brasil? E em Mato Grosso?
Recentemente a
Federação da Indústria de São Paulo divulgou um relatório indicando que
a corrupção furta R$ 70 bilhões no Brasil. Pesquisas mais antigas,
feitas pela transparência internacional, falam em R$ 100 bilhões. Só
para se ter ideia desse volume, a educação pública consome R$ 31 bi.
Isso é mais grave quando a gente compara com outros estudos de entidades
que tratam da questão da alimentação, da fome. De cada R$ 50 mil que vai
para a corrupção morre uma pessoa inanição, falta de médico, de
saneamento, de infraestrutura. São mais de 2 milhões de pessoas em risco
de morte e situação de penúria.
Para ser bom
candidato, basta não ser corrupto? Isso não seria muito pouco? Não é
preciso ter projeto político, para além de ser honesto?
Condição do caráter e
da honra é importantíssimo, mas também o nível de engajamento, nas lutas
de movimentos sociais, preocupados com o bem comum. Para ser um
político, essa pessoa tem que ser um verdadeiro sacerdote que se
preocupa com a vida coletiva.
Por que essa ideia se
desvirtuou tanto? Porque fizeram da política um negócio, onde é possível enriquecer rapidamente e fácil. Então muitos espertalhões buscam na política esse caminho fácil de ascensão e de também ficarem impunes. É um grande escudo de proteção. |