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Falta de vagas para
dependentes químicos compromete a árdua luta contra drogas em MT
Sítio Beato José de
Anchieta propõe retiro e investigação sobre dificuldades humanas que
estão por traz do vício
Por Keka Werneck,
da Assessoria de Imprensa do Centro Burnier Fé e Justiça
Pedras pintadas com cal delimitam o
caminho de terra que dá acesso ao Sítio Beato José de Anchieta, a
BUSCA DE EQUILÍBRIO
PELA PSICOLOGIA DA FÉ
O Sítio é uma das 30 comunidades de
internação
Dessas 30 casas de internação, 15 ficam
na Grande Cuiabá. Conforme apurou a reportagem, nesse setor não há
ambientes de luxo
O Estado tem apenas a Unidade 3 para
internação. São 40 vagas, mas, conforme a própria Coordenadoria, estão
sempre ocupadas.
Milhares de dependentes químicos ficam
simplesmente desassistidos.
Segundo o relatório anual da Agência das
Nações Unidas contra a Droga e o Crime (ONUDC), 200 milhões de pessoas
são viciadas em drogas no mundo: 163 milhões (maconha), 34 milhões
(anfetaminas), 8 milhões (ecstasy), 14 milhões (cocaína) e 15 milhões
opiáceos (como a heroína).
Apesar dos números, a luta contra as
drogas ainda não tem o devido respaldo da sociedade no Brasil. O
alcoolismo atinge 10% da população brasileira.
No Sítio Beato José de Anchieta tem chão
batido, horta, galinheiro, pocilga, fogão à lenha, longos silêncios. É a
rotina de um Sítio comum. Mas aos poucos as histórias de vida vão dando
clareza ao propósito desse retiro rural, que, certamente, não é um
propósito qualquer. Embora seja uma gota no oceano.
Todos os nomes
utilizados na matéria são irreais, para não expor os entrevistados.
PROBLEMA É
TRANSVERSAL
O droga é transversal. Atinge jovens,
adultos, velhos, homens e mulheres, do campo e da cidade. Nesse Sítio só
tem homens. João Carlos é um deles. Negro, 62 anos, lavrador! Perguntado
como se envolveu com entorpecentes sendo um homem da roça, ele explica
que traficantes vão às biroscas das comunidades, onde normalmente tem
apenas uns cartazes colados na parede, cigarro, pinga, umas pururucas
industriais e mesa de sinuca. É num bar assim, na comunidade de
Limoeiro, zona rural de Cáceres, que João Carlos conheceu a pasta base
do crack e passou a consumir. Um problema a mais somado ao álcool, que
já fazia um enorme estrago na vida dele. Sóbrio, trata-se de um homem
pacato. Mas “noiado” fazia o inferno com a mulher e os sete filhos, que
não aguentaram e pediram para que saísse de casa. “Era briga perigosa,
que não ia dar em boa coisa”, reconhece ele, parecendo mais um bom avô
falando do que alguém capaz de, por exemplo, partir para agressão. No
Sítio, ele é o responsável pela horta, que produz alface, rúcula, couve,
cenoura, pepino, mostarda, cheiro verde e outros itens.
A comida no Sítio Beato José de Anchieta
é fresca e boa parte dela produzida ali. Os internos trabalham 3 horas
por dia, pela manhã, plantando e em outros serviços da lida de um
sitiante.
De avental, o zelador Edson, de 22 anos,
corta o tomate em uma tábua de madeira e conta que esta semana está
cozinhando. Os internos trocam de turno nos demais serviços. Cozinhar,
para Edson, é bom, ele gosta. Na semana da cozinha, ele acorda antes do
sol, para preparar o café, que é servido às 6 horas, à base de pão
caseiro, que ele aprendeu a fazer. “Depois do café, a gente faz uma
caminhada e reza”.
À tarde, todos estudam e fazem reflexões
sobre si mesmos. Há alguns momentos em que ligar a televisão é
permitido. Às 22h, as luzes se apagam; hora de dormir.
O Sítio é uma entidade filantrópica, da
Associação Antônio Vieira, com sede
O padre Pedro Canísio, da paróquia do
Rosário e São Benedito, é o responsável por este trabalho. Ele explica
que “o atendimento não é pago. Cada família dá a contribuição que
puder”. O Estado faz colaborações eventuais. A Justiça também reconhece
o trabalho da entidade e repassa verbas de penas alternativas. O
Ministério Público do Trabalho idem. Alguns voluntários são doadores
fixos.
A conta para quem
quiser fazer o mesmo é do Banco do Brasil (Agência: 0046-9/ Conta:
29364-4).
A RECUPERAÇÃO
O zelador Edson reconhece que, no
início, ir para o Sítio foi a coisa mais difícil que já fez na vida.
Estava numa “balada” desnorteada, virando noite...Mas resolveu atender
aos apelos desesperados da mãe. Ele é o filho mais novo. As duas irmãs
que tem já são casadas. “Há mais de dois anos vinha usando bebida,
maconha, cocaína e no fim passei para a pasta base. Tentei parar por
conta própria, mas reconheço: não sou autossuficiente contra as drogas,
preciso de ajuda”. Perguntado sobre como ficou sabendo do sítio, disse:
“Minha mãe correu atrás até achar uma vaga em algum lugar para mim”.
O padre Pedro entende que, quando a
família apóia, a recuperação tem mais chances de ocorrer. Porém, é
preciso alertar. A família do dependente químico adoece junto com ele.
“Se não se cuidar, tende a abandonar”, avisa a pedagoga Maria Benedita,
coordenadora do Sítio. Por 10 anos, ela foi voluntária na construção
desta idéia de atendimento. “Esse projeto surgiu da Casa de
Misericórdia, instalada na paróquia do Cristo Rei,
Os leigos são membros
da igreja católica, que trabalham nela, essencialmente na disuão do
Evangelho, mas não são ordenados.
O tratamento passa por três etapas:
resgate da história de vida, reconhecimento dos sonhos de vida e
construção de um projeto de vida.
A Espiritualidade
Inaciana contribui nessa busca, orientando passo a passo reflexões
morais e éticas. “A Pedagogia e
Espiritualidade Inaciana perpassam todas as atividades.
Por isso, pode-se dizer que os
momentos de espiritualidade
ou
“manhãs de espiritualidade,
realizadas com os internos apenas iluminam
o processo de recuperação, com dinâmicas, músicas e textos
bíblicos, refletidos de forma ecumênica, participativa e comunitária”,
diz Arlene Monteiro Klein, servidora pública e voluntária no Sítio.
O método pedagógico utilizado no Sítio,
inspirado pela Pedagogia da Libertação de Paulo Freire, indica que o
único caminho possível é o da conscientização.
“A droga não é nada, a questão não é a
droga, mas o que estão por traz dela. A droga é apenas algo que alguém
usa, para fugir de si mesmo. Tem gente que compra compulsivamente, por
exemplo. Mas quem está nessa situação tem que se perguntar: o que me
deixa vulnerável às drogas ou às compras. Entendeu?”- indaga Maria
Benedita.
O zelador Edson, por exemplo, não
conheceu o pai. O viu uma única vez quando já era rapaz. Conta que,
sendo de família pobre, cresceu com algumas raivas, como a raiva de
querer um trabalho bom e não ter, a raiva de querer comprar uma moto e
não poder, a raiva de querer estudar em uma faculdade e desacreditar que
isso seja possível.
Ele também é muito ansioso. Contra a
ansiedade a terapeuta Irmã Mariana, acupunturista, está aplicando o
método chinês, milenar, nos internos. No sagão de um dos alojamentos,
cria-se o clima para o relaxamento. Música de meditação e um colchão
sobre a mesa de madeira, forrado com lençóis limpos, cheirando a sabão
As histórias de vida deixam claro que o
problema das drogas começa
TRATA QUEM QUER
O Sítio Beato José de Anchieta tem
Uma das coisas que incomodou Marcos
foram as tantas regras. Hora para tudo. E não é permitido andar sozinho
pelo sítio. Quatro homens, os mais antigos na Casa, fazem a linha de
frente nos deslocamentos. Cuidam do espaço, dão permissão ou não.
Marcos foi embora e a pedagoga Maria
Benedita ficou lamentando. “Que pena, não devia ir”, pensa ela. “A
reincidência é muito alta, preocupante”.
Hélio, 50 anos, já tentou mais de 10
vezes parar de beber. Separou de várias mulheres e tem cinco filhos. Ele
é escultor. Está há três meses no Sítio. Mas há 20 dias foi à cidade,
teve uma recaída e voltou. Em uma marcenaria improvisada trabalha para
mudar essa realidade.
Ir ou ficar é opção. Luiz, por exemplo,
está no Sítio há 10 meses. Ele quer assim. Só vai sair, quando se sentir
preparado. Separado, pai de três filhos, nunca teve dificuldades
financeiras, mas perdeu o que tinha na vida ou como prefere dizer:
“Fumei tudo”. Ele tem uma irmã que é freira. Foi ela que o encaminhou
para lá. “O mais importante, porém, é que eu vim, porque quis”, entende
ele. Maconha, álcool, cocaína, pasta base de crack. Tudo isso fez parte
da vida dele por vários e vários anos. “Desde a sétima série!”-
relembra. O pai dele é funcionário público; a mãe dona de casa. Ele é
maitre, ou seja, cozinheiro de primeira linha, de
buffet. Após várias decepções
amorosas, no trabalho e financeiras, se viu cansado. “Chega de tanta
agitação, medo, broncas, perdas, emoções instantâneas”. É ele que teve a
coragem de dizer à reportagem que as drogas são muito gostosas e que por
muito tempo trabalhou só para pagar por este prazer. Ele chegou a ganhar
uma casa de herança do pai. “Fumei ela”. E mais de R$ 10 mil. “Fumei
tudo”. Não tinha ninguém no mundo que o fizesse parar. É por isso que
agora ele não aceita bem o discurso da saudade da família. “A gente está
lá fora e não dá valor a isso, foge dos pais igual o diabo da cruz e
agora vem com essa de saudade...”
Visita só uma vez por mês, no primeiro
domingo. Nos finais de semana, é permitido ligar para parentes com o
celular do Sítio. Aparelho próprio é proibido.
Há histórias de pessoas que fogem, que
vão a pé até a cidade atrás de drogas e depois voltam na madrugada de
mototaxi. Há muitos casos...Mas a verdade é uma só e que a coordenação
confirma. Fica quem quer, vai embora quem quer.
Ir e vir faz parte da vida do professor
de história Eduardo, 36 anos. Ele teve várias recaídas. Várias! Ele é
servidor do município de Cuiabá e acaba de passar no Concurso realizado
pelo Governo do Estado. “Inteligência não basta. Tem que ter
inteligência e consciência. Precisa ter informação e discernimento. Isso
falta aos jovens e faltou para mim, quando eu era criança e meus irmãos
ofereciam droga para mim. Faltou alguém para me dizer o contrário,
porque eles só diziam o quanto era bom fumar maconha. Meus irmãos, os
dois, morreram. Um suicidou; o outro, drogado, foi atropelado”, conta o
professor. Há 20 dias, ele voltou ao Sítio. Em um momento de
descontração, lá estava ele, cantando uma paródia que fez com a música
do Gilberto Gil, “Sítio do Picapau Amarelo”.
“Pé inchado também é gente/ noiado chega sem dente/ sai gordo chega
magrelo, tchu, tchu, tchu, tchu/ sítio do deeedo amarelooo”.
Todos riram.
APOIO À FAMÍLIA
Dar apoio à família. Essa é a tarefa dos
grupos da rede de mútua ajuda. A ajuda é mútua porque a história de um é
alento para os outros e vice-versa.
Al-anon
(3624-1375 ou 9205-6441) é o grupo para
familiares de alcoólatras. Amor Exigente (3623-1802 ou 8131-1118)
recebe familiares de todo tipo de dependente, que o ama, mas não o
aceita nessas condições de vício. Já o Nar-anon (9646-9180) é
formado por familiares de usuários químicos. E a Pastoral da
Sobriedade (3026-3092) atende familiares com todos esses problemas.
A REDE QUE EXISTE
Existe uma rede de combate às drogas
A proposta governamental é orientada
pelo Ministério da Saúde. O atendimento é dado em Centros de Atenção
Psicossocial Álcool e Drogas (CAPs-AD). Nesses centros, o usuário recebe
atendimento ambulatorial e passa por uma triagem para que seja
identificado o grau de dependência dele. Isso indica a necessidade do
tratamento em domicílio: intensivo (diário), semi-intensivo (duas ou
três vezes por semana) e não intensivo ( até três vezes por mês).
Este é um serviço especializado em saúde
mental que atende adolescentes e adultos com transtornos decorrentes do
uso de álcool e outras drogas.
Telefones: 3661-1801
(adultos) e 3617-1322 (para adolescentes).
A Unidade 3, de internação, faz a
desintoxicação por 30 dias. Mais que isso não pode ficar.
A família, não encontrando uma forma de
internar o parente, pode recorrer à Justiça, para cobrar uma vaga, por
meio do Juizado Especial (avenida Getúlio Vargas, 450, Centro de Cuiabá.
Telefones: 3623-3506 ou 3623-2558 ou 3624-2920).
As outras formas que o Governo encontra
para atuar contra as drogas é distribuindo cartilhas, fazendo palestras,
dando entrevistas.
Para a economista Sandra Matsui, da Coordenadoria de Políticas Sobre
Drogas, as ligações que ela recebe, pelo 0800 647-1222, dimensionam o
quanto é importante avançarmos, governo e sociedade, no combate às
drogas. “Sinto o desespero das pessoas, a indignação. Elas não sabem o
que fazer, e ligam procurando uma ajuda, um socorro”. |