Política e religião se discute
ALC
Cuiabá, quinta-feira, 9 de setembro de 2010 (ALC) - O
Brasil é um Estado laico. O governo não prega religião, mas ela tem influência
nos aspectos social, cultural e político do país. As informações foram assumidas
por dom Milton Santos, 64, arcebispo da Arquidiocese católica de Cuiabá, e pelo
pastor evangélico-luterano Teobaldo Witter, 60, em entrevista concedida ao
Diário de Cuiabá.
Eles orientam os fiéis de suas congregações a escolherem
bem em quem vão votar. Recomendam pesquisar o passado do candidato e a não votar
nos fichas-sujas. A Igreja Católica incentiva fiéis leigos a entrarem na vida
política, mas não permite que padres se candidatem. Já pastores podem ser
candidatos, para trabalhar não apenas para o seu grupo de pessoas, mas para toda
a sociedade.
Dom Milton informou que a Arquidiocese de Cuiabá
iniciou movimento cívico-religioso com professores paroquiais, que são os
multiplicadores leigos para as 512 comunidades de 27 paróquias, envolvendo
18.500 pessoas nos grupos de reflexões.
Pastor Teobaldo disse que a Igreja Evangélica de
Confissão Luterana no Brasil (IECLB) está no país desde 1824, quando migrantes
edificaram comunidades e escolheram seu presbitério, seus ministros religiosos,
a presidência de sua igreja e seus conselheiros. A Igreja pede para, antes de
votar, ouvir, pesquisar, indagar, questionar, propor, selecionar.
“É hora de olhar nos olhos dos candidatos e não se
deixar enganar por belas palavras e slogans políticos vazios, vendo neles a real
intenção dos seus programas de governo, dos seus projetos legislativos e a
vontade política de defender a vida humana desde a sua concepção até o seu final
natural, de promover a família brasileira fundada sobre o casamento entre o
homem e a mulher, de preservar o meio ambiente no respeito aos vários biomas
existentes em nosso país”, defendeu dom Milton.
Na campanha ficha-limpa o povo brasileiro deu um bom
exemplo de ajuda para a transformação da sociedade. “Toca agora a cada eleitor
escolher pessoas honestas, competentes, desprovidas de interesses pessoais, de
grupos ou de setores privilegiados da sociedade, mas que promovam o bem comum e
tenham compromisso social com os mais necessitados. Eles têm o direito de saber
para votar conscientemente e a responsabilidade de não eleger quem desmereceu
sua confiança”, enfatizou o prelado católico.
Para o pastor Teobaldo, a lei da ficha-limpa é muito
importante. “O fato de denúncias de desonestidade de alguns mandatários serem
levadas ao público é sinal de que as coisas estão melhorando. Já não é mais tão
simples esconder a corrupção. A participação da indignação popular cresce na
busca por transparência e justiça. A lei da ficha-limpa é uma consequência do
clamor de parte considerável da população brasileira. Ela deve ser, agora,
aplicada adequadamente pelos órgãos responsáveis”, ratificou.
O voto não tem preço, tem consequência: é uma decisão da
consciência e exercício da cidadania que se reflete na vida das pessoas, frisou
dom Milton.A igreja apoia as práticas políticas da luta por trabalho, moradia,
água tratada, alimentação, saúde pública, segurança, lazer, terra, escola,
coleta e tratamento de lixo, enfim, as coisas necessárias para a vida humana com
dignidade, emendou o pastor Teobaldo.
O pluralismo na política é necessário para a saúde da
democracia. Sem isso, não há regime democrático. No púlpito, a linguagem é
bastante simbólica e se refere ao sagrado. Diante do sagrado, as pessoas
silenciam. Elas ficam sem argumentos. Na política, não pode haver silêncio. Deve
haver argumentação. Houve época na história em que Igreja e Estado eram uma
coisa só. Foi tempo muito ruim, com escravidão, terrorismo e guerra santa,
lembrou o pastor luterano.
A Arquidiocese de Cuiabá está sistematizando um setor de
elaboração de projetos na dimensão social na área administrativa com esta
finalidade. É dever dos governos municipal, estadual e federal destinarem verbas
para o social, para a educação, mas é preciso que tudo se comprove com Projetos
e Prestações de Conta, assumiu dom Milton.
O pastor Teobaldo entende que quem deve fazer este
trabalho é o Estado. Para isso ele foi criado e para isso o cidadão vota e paga
impostos. A Igreja deve cuidar da vida de fé, enquanto o Estado cuida da vida
temporal, material, humana. Mas, como o Estado tem fracassado, não dá conta, a
sociedade se organiza, através do terceiro setor, das igrejas, do movimento
social.