As igrejas, a cidadania e os candidatos nada
cândidos
Antonio Carlos Ribeiro
A campanha dos candidatos Ficha Limpa, originada nos
movimentos populares – ao descobrirem que não tinham nenhum controle sobre seu
candidato – foi uma luta renhida, até se tornar lei. No entanto, os movimentos
populares viram que a ficha criminal de alguns políticos era maior que a folha
de serviços prestados, mas eles estavam protegidos pela garantia da imunidade
parlamentar. O caminho era impedir que bandidos exercessem cargos públicos.
Mas logo começaram os vários obstáculos à Ficha Limpa.
Nos partidos que não queriam expulsar os criminosos que não assumiam, houve
casas legislativas estaduais e federal que relutavam em votar uma lei
considerada funcionalmente suicida e, nas várias esferas do judiciário, em que
diversos membros foram absolvidos ou, mais deprimente, bateram recorde do número
de processos por indivíduo, sem falar no fim da fonte certa de recursos para
funcionários corruptos, nas diversas instâncias.
Com um movimento que não cede e um clamor que só faltava
ganhar as ruas, o prazo para a aprovação da lei foi mantido pelo Supremo
Tribunal Federal, com votos contrários e mandados que negavam seus propósitos.
Mal começaram a celebrar os avanços, vieram os boicotes,
do Parlamento que relutou muito em votar o projeto, para proteger interesses e,
por fim, do STF a emitir mandados baseados na acentuação e pontuação do texto da
lei, ou mencionando a votação do mérito, para salvar candidaturas de difícil
aceitação. A decisão provocou reação. A população não quer votar em bandido e
cabe à justiça dizer quem é bandido. E honrar o esforço, naturalmente!
A blindagem de funcionários públicos dos poderes
constituídos por decisão dos mesmos poderes começou a gerar impasses e
protestos. E isso por causa do tipo e da quantidade de crimes, de quem tinha
restituída a credibilidade pública sem a merecer, e de quem absolve criminosos
notórios, de ficha suja e pública.
Enquanto se decidiam os trâmites e prazos da justiça, o
risco de favorecer contraventores conhecidos voltou à baila. A possibilidade de
burla levou a imprensa a voltar aos nomes, aos crimes, às famílias tradicionais
e aos partidos que, nos estertores dos prazos, atraíram a repulsa sobre
agremiações que admitiram ter lhes emprestado a legenda.
A origem histórica do termo candidato vem da túnica alva
usada pelos pretendentes a cargos eletivos no Império Romano em suas campanhas,
observou o jornalista Mauro Santayana.
Lavadas todas as manhãs, para que não tivessem nenhuma
mancha, essas túnicas eram sinais de pureza de propósitos e postura ética que
não deixa comprometer a sua candidez. Essa peça do vestuário lhes garantia
credibilidade, confiança e por isso era tida como chancela da correção
necessária à vida pública.
Quando alguém próximo do candidato percebia o menor traço
de sujeira na roupa, o levava a trocá-la. Entre os seguidores já havia alguém
com a túnica imaculada para a troca, ou ainda a esperteza comum aos tribunos
romanos de remotos tempos, de desvestir a túnica, logo que percebiam que a
sujeira estava à vista, vestindo-a de novo. Pelo avesso, para recuperar a
candura necessária à função, que ele só portava às avessas.
A Lei da Ficha Limpa em nosso país, de raiz confiável – o
grito das ruas – e apoio de instituições como a Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs e a Ordem dos Advogados, cuja
confiabilidade suportou a escuridão dos tempos difíceis da ditadura e a clareza
de sua prática fotografada e filmada à luz do dia, foi impressa nos jornais,
divulgada em alto som nas rádios e exibida em canais de TV, voltou ao debate,
agora pela tentativa de burlá-la.
Se as margens de negociação foram propositadamente
deixadas no texto legal, votado sob pressão e nos horários limites, necessários
à vigência que garantirá alguma seriedade no pleito em andamento, ficaram claros
para a população, embora não pareça ter sido recebido com o mesmo fervor nos
poderes que aprovam leis e que as cumprem.
Agora está aí a população a exigir que a lei aprovada não
seja usada para a negação de seus propósitos. Contribuir, de qualquer forma,
para burlar a lei é, na prática, desrespeitar o poder popular que a gerou.
Se na Roma antiga a honestidade do candidato era visível
na limpidez da túnica, no Brasil, é na ficha. Respeitar a República e a
cidadania é manter a decisão e defender o direito da população a políticos
honestos.
É preciso ficar atento para que o STF não surpreenda
negativamente, como fez ao deixar impunes os crimes da ditadura - com Eros Grau
baseando o voto em Schmidt, jurista do nazismo - e deixando criminosos fardados
impunes, e as famílias sem direito de sepultar seus mortos. Se decidir legitimar
a candidatura de criminosos, vai provocar reações. E garantir a continuidade da
criminalidade. Os que têm firmeza amoral e convicção por causa dos crimes nunca
punidos, contam com isso.