A QUESTÃO AGRARIA NO BRASIL
O geógrafo
Paulo Alentejano,
professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Escola
Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), conta nesta
entrevista como o limite do tamanho da propriedade rural no Brasil pode reduzir
a desigualdade no campo. Ao contrário do que os opositores da medida fazem
parecer, ele explica por que a proposta não é radical e como outros países já
limitaram o tamanho das fazendas, inclusive implementando reformas agrárias.
Segundo o pesquisador, nenhum projeto de reforma agrária foi colocado em prática
em toda a história do Brasil.
A entrevista é de Raquel
Júnia
e publicada pelo sítio da
Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio,
Fiocruz, 30-08-2010.
Eis a
entrevista.
Qual é o quadro
brasileiro em termos de concentração fundiária?
A concentração da
propriedade da terra no Brasil é algo não apenas persistente como crescente. O
Brasil está entre os países com maior grau de concentração, seja pelos dados do
IBGE, seja pelos dados do Incra. O
IBGE
trabalha com a categoria de ‘estabelecimentos agropecuários’, que leva em
consideração a unidade gestão, enquanto o Incra leva em consideração o documento
de propriedade, trabalhando com imóveis. Pelo IBGE, a comparação é que a parcela
dos maiores estabelecimentos, com mais de mil hectares, que são menos de 1% do
total, tem 44% das terras, enquanto os menores estabelecimentos, que são 47% do
total, somam apenas 2,36%. Ao se tomar como base os dados do Incra de imóveis
rurais no cadastro de 2003, isso não é muito diferente – a grande maioria dos
imóveis tem menos de 10 hectares, mas ocupam a menor área.. Pelo
Incra
os dados mostram que propriedades com menos de 10 hectares são 31,8% do total e
ocupam só 1,8% das terras agrícolas Os imóveis com mais de cinco mil
hectares são apenas 0,2% do total e tem 13% das terras .
E
historicamente, como o país chegou a esta situação?
Esta história se
inicia sem dúvida já com o processo da colonização, quando, através das chamadas
Sesmarias, se distribui o controle da terra para poucos amigos do rei de
Portugal. Eles passam a ter o direito de explorar a terra, mas também a
responsabilidade sobre o controle político do território, em um sistema que
articula economia e política. Há a exploração da terra, via exploração do
trabalho escravo, e também controle político sobre o território, para que outras
potências estrangeiras não viessem se apoderar disso. Então, há já no início da
colonização o estabelecimento do latifúndio, que se reafirma em 1850 com a
Lei de Terras.
A lei transforma a terra numa mercadoria e, ao dizer que as pessoas só podem ter
acesso à terra na medida em que têm recursos para comprá-la, alija os
escravos que estão em processo de libertação, os imigrantes que vão vir para
substituir os escravos, os homens livres e pobres. Mantém-se o monopólio da
terra e a concentração após a
Lei de Terras
e ao longo de toda a história do século XX. E agora, no século XXI, as
sucessivas tentativas de realizar a reforma agrária no Brasil foram barradas
pelo poder político do latifúndio. Isso, inclusive, se acentua nos últimos anos
em função do caráter da modernização que se deu na agricultura brasileira a
partir dos anos 1970. Essa modernização vem reforçar a concentração, na
medida em que aumenta a capacidade produtiva com a expulsão cada vez maior de
trabalhadores da terra. Portanto, há uma persistência histórica da concentração
da terra no Brasil que se refaz e se reforça até o momento pela incapacidade de
os movimentos sociais transporem essas barreiras políticas e de
modernização técnica.
Você considera
que o Brasil em algum momento tentou ou colocou em prática algum projeto de
reforma agrária?
O momento que
chegou mais próximo disso foi antes do golpe [civil-militar] de 1964. Naquele
momento existia uma mobilização muito forte no campo, as
Ligas Camponesas,
a
União dos Trabalhadores da Agricultura-ULTABs,
o Movimento dos Agricultores sem
Terra
(Máster),
havia uma diversidade grande de movimentos sociais rurais naquele momento, com
uma articulação importante naquela história. E havia também por parte do governo
João Goulart
uma aposta na possibilidade da reforma agrária como parte das reformas de base.
Entretanto, as forças conservadoras mais uma vez acabaram por triunfar. João
Goulart anunciou em comício na
Central do Brasil,
no dia 13 de março de 1964, a desapropriação das terras localizadas nas
imediações das rodovias e ferrovias federais. Menos de um mês depois houve
o golpe militar, em 1º de abril, e uma das razões fundamentais foi
justamente a reação à proposta de reforma agrária no Brasil. De lá para cá isso
se repetiu muitas vezes: quando há uma força maior dos movimentos, há regressão
do processo pela reação conservadora. Isso aconteceu em 1964, aconteceu com a
Nova República, quando Tancredo
Neves
e a Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil
construíram o primeiro plano nacional de reforma agrária e a
UDR
[União Democrática Ruralista]
reagiu fortemente, esvaziando o plano, e, depois, na Constituição de 1988,
quando a luta pela reforma agrária também foi esvaziada. Imaginava-se que o
governo Lula
iria efetivar a reforma agrária, construiu-se a perspectiva do segundo
plano nacional de reforma agrária e, mais uma vez, a força do agronegócio
se contrapôs com a justificativa de que tem uma importância enorme para a
balança comercial. E aí se desconstruiu novamente a possibilidade da reforma.
Então, reafirmou-se a todo momento este esvaziamento da reforma agrária. Quando
os movimentos colocam na pauta as forças conservadoras se rearticulam e impedem
que ela se efetive.
E há
experiências em outras partes do mundo que tenham implementado propostas de
reforma agrária que deram certo?
Podemos falar isso em movimentos que foram conduzidos na
lógica da modernização capitalista, como é o caso dos Estados Unidos, que
impuseram o processo na Ásia no final da Segunda Guerra Mundial - inclusive
estabelecendo limite para o tamanho da propriedade da terra no Japão, na Coréia
do Sul e em Taiwan. Na América Latina houve processos diferenciados e amplos de
reforma agrária, alguns a partir da base, da mobilização popular - o caso do
México é o mais emblemático, mas há também o da Nicarágua - e outras
propostas de natureza reformista, como no Peru, no Chile ena Bolívia, em vários
momentos históricos. A reforma agrária surge no mundo como uma medida de
desenvolvimento do capitalismo e em outros casos foi associada a processos
revolucionários, que é o caso da União Soviética, da China, de Cuba e outras
situações sui generis. Então, a reforma agrária é algo que ao longo dos últimos
200 anos ocorre muitas vezes, em muitos países, com muitos sentidos e situações
diferenciadas.Não há uma regra única para esse processo.
A reforma
agrária não é então algo necessariamente radical, como fazem parecer ser?
Não, em alguns
casos ela foi exatamente um processo de modernização capitalista. Aliás, na
década de 1960, o governo
Kennedy,
nos Estados Unidos, formula na chamada
Aliança para o Progresso
a ideia de que era preciso fazer reforma agrária na América Latina para conter
processos mais amplos à semelhança do de Cuba. Então, inclusive, há uma
construção da reforma agrária como uma medida anti-revolucionária. No Brasil,
nada disso se concretizou, nem sequer reformas agrárias tímidas pontuais,
anti-socialistas ou anti-revolucionárias. Na verdade sempre foram obstaculizadas
pelas forças do latifúndio que não abrem mão do monopólio da terra. A terra tem
se constituído como um bem econômico, que significa poder político e que dá
acesso a fundos públicos, este é um outro elemento fundamental. A terra no
Brasil é um dos mecanismos de acesso a financiamento e isso é uma estratégia que
faz com que grandes grupos econômicos sejam grandes proprietários de terra,
embora não sejam exatamente grandes produtores. Hoje no Pará, por exemplo, o
grupo Oportunity
do Daniel Dantas
tem enormes extensões de terra para pretensos projetos agropecuários como
lavagem de dinheiro, evasão de impostos e uma série de mecanismos que existem
também do ponto de vista financeiro e que justificam o controle sobre a terra.
(nota do editor: O Banco
comprou 56 fazendas que totalizam aproximadamente 600 mil hectares no sul do
Para. Recentemente o conselho Nacional de Justiça- CNJ, cancelou os
titulos de mais de 6 mil fazendeiros no Pará que havia se apropriado de milhões
de hectares de terras publicas de forma fraudulenta. entre eles havia uma
fazenda do Oportunity)
Essa nova
configuração que você descreve com a presença de grandes corporações também
proprietárias de terra muda a correlação de forças no campo?
Sem dúvida. Embora
o latifúndio seja persistente no Brasil, ele tem caras diferentes ao longo do
tempo. O latifúndio já foi a cara do velho coronel das oligarquias agrárias, do
senhor de engenho, e hoje o latifúndio, embora exista também assim, tem
fundamentalmente a cara de grandes empresas capitalistas, grandes monopólios
financeiros, grandes empresas transnacionais e grandes grupos empresariais
brasileiros também, que, inclusive, se utilizam de instrumentos como grilagens
de terras para se apropriar das terras públicas, e se utilizam de trabalho
escravo ainda hoje. No ano passado, o Rio de Janeiro foi o estado com o maior
índice de trabalho escravo no Brasil em função de casos identificados na usina
Santa Cruz, que é arrendada pelo grupo
J. Pessoa,
o maior grupo usineiro do Brasil. Então, não estamos falando de um coronel
atrasado no sertão, mas de grandes grupos empresariais, que trabalham com
trabalho escravo aqui e altíssima tecnologia lá. O capital hoje articula as
formas mais desenvolvidas possíveis tecnologicamente com as formas mais arcaicas
de exploração do trabalho, não há contradições desse ponto de vista. Então, são
interesses extremamente poderosos que existem hoje contra qualquer tipo de
reforma agrária, e por que isso? Porque mesmo o agronegócio dito altamente
produtivo necessita permanentemente de terras novas para sua expansão. Até
porque desgasta profundamente o solo e, desgastando o solo, precisa de novas
terras para se expandir, e se não tiver estoque de terras improdutivas não tem
para onde avançar e não tem com se recompor. Por isso há uma necessidade desses
setores, mesmo os ditos mais desenvolvidos da agricultura brasileira, de
manterem estoques de terras paradas e situações arcaicas de produção. Por que os
empresários não aceitam a atualização dos índices de produtividade para
desapropriação de terras para reforma agrária, que são de 1975? Porque
necessitam permanecer com estoque de terra parada para que ele possa lançar mão
em algum momento.
(nota do editor: O Incra
revelou há poucos dias que há hoje 130 mil imoveis de propriedade de
empresas capitalistas que compraram terras e que controlam nada menos od que 177
milhoes de ha)
Esta proposta de
atualização dos índices de produtividade também foi bastante combatida. Como
está esta discussão?
A lei agrária de
1993 estabelece que por decreto interministerial os índices serão atualizados de
tempos em tempos. E quando a lei estipulou os índices, o fez com base em dados
super atrasados, do censo de 1975. Desde o primeiro
governo Lula
existe uma proposta de atualização dos índices de produtividade feita pelo
Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA),
que está na mesa do gabinete civil da presidência para que seja assinado. A
proposta nunca foi efetivada porque tem que ser um decreto interministerial e
tem que ter assinatura do MDA e também do Ministério de Agricultura, Pecuária e
Abastecimento (MAPA), que é o ministério que representa os interesses do
agronegócio, do latifúndio, da grande propriedade da terra no Brasil. Os
sucessivos ministros da agricultura sempre negaram acordo para atualização dos
índices de produtividade e a força política deles sempre foi a bancada
ruralista, que sempre disse que se houvesse atualização dos índices de
produtividade o governo Lula
perderia qualquer apoio deles. Então, há um processo claro de pressão política
da bancada ruralista, que beira a chantagem, para a não atualização dos índices
de produtividade e o governo
Lula
sucumbiu à força política destes setores.
E essa proposta
atualiza os índices com base em que dados?
Ela utiliza os
Censos Agropecuários
de 1995 - 1996, não chega nem a utilizar o de 2006, até porque a proposta foi
feita antes de o Censo ser liberado, e utiliza também os estudos da Embrapa e
uma série de estudos para fazer a atualização desses índices. Mesmo utilizando
os dados da década de 1990, melhoraria substancialmente em relação aos índices
de produtividade de 1975. De lá para cá, os índices médios de produtividade
subiram substantivamente.
Para além desta
discussão do limite e dos índices de produtividade, existe a proposta de um novo
modelo para a agricultura brasileira levantado pelos movimentos sociais do
campo. Quais são as bases deste modelo?
A proposta do movimento e de setores que trabalham
próximos aos movimentos do campo vai em quatro direções fundamentais. A primeira
é a necessidade de romper com a histórica concentração fundiária, porque isso
produz injustiça e desigualdade. A segunda é chamar atenção para o processo
recente de internacionalização que a agricultura brasileira vem sofrendo, que se
expressa também na compra de terras pelos estrangeiros.– Parece que agora o
governo tentará alguma medida de restrição a isso, mas problema não se
resume à compra de terras. Essa questão passa, por exemplo, pela crescente
dominação das empresas transnacionais sobre a agricultura brasileira, impondo um
aporte tecnológico com sementes, agroquímicos e a própria compra da produção
agropecuária que cada vez mais é controlada pelas grandes empresas
internacionais. A terceira crítica é que, em função do latifúndio, há uma
tendência cada vez maior de que se privilegie no Brasil a produção de matérias
primas industriais e produtos para exportação, que interessam aos grandes grupos
estrangeiros, e não a alimentação da população brasileira.
Cada vez mais tem se ampliado no Brasil a produção de
soja, de milho, de cana de açúcar, monoculturas de eucalipto e de pinho para
produzir celulose, contra a área destinada à produção de arroz, de feijão, dos
alimentos básicos. É um modelo produtivo que atende a interesses externos e não
àquilo que seria fundamental para ampliar a segurança alimentar da população
brasileira. E o quarto elemento fundamental é que este modelo agrário vem
acompanhado de uma lógica da violência, que expulsa trabalhadores do campo de
forma violenta, realiza o trabalho escravoe explora altamente o trabalho
daqueles poucos que sobram no campo. Um exemplo é a situação dos cortadores de
cana que, para competir com as colheitadeiras. têm que aumentar cada vez mais a
produtividade do seu trabalho, e isso implica jornadas cada vez mais exaustivas
e problemas de saúde cada vez mais danosos aos trabalhadores.
O outro elemento
que também é conseqüência deste modelo é a devastação ambiental, o avanço sobre
as florestas - está aí a pressão toda para se mudar o
Código Florestal
para poder avançar ainda mais este processo de desmatamento. E aliado a
isso há também um crescente uso de agroquímicos que fazem do Brasil hoje o
campeão no uso de agrotóxicos, com um grau cada vez mais intenso de contaminação
dos alimentos que ingerimos. É nesse sentido que os movimentos tem se
contraposto a isso com o limite da propriedade da terra, a proposta da
agroecologia como base de uma produção que ao mesmo tempo evite a devastação e
conviva com os ecossistemas de forma mais equilibrada, e, sobretudo, não use
essa enormidade de agrotóxicos que vem sendo utilizada. Esta proposta se baseia
também em relações de trabalho muito mais justas do que as que estão colocadas
atualmente.O conjunto desaas coisas é que está colocado como o contraponto da
articulação. A crítica a esse modelo agrário dominante se rebate na defesa de um
outro modelo que embasaria a proposta de reforma agrária, com base na
democratização das condições de vida no campo e na rejeição desaas
características que estão postas com este modelo - violência, superexploração do
trabalho e devastação ambiental.
De acordo com a
marcação do Incra, propriedades com mais de 15 módulos fiscais são consideradas
grandes. Então, mesmo com a limitação em 35 módulos fiscais proposta pelo
plebiscito, ainda teremos grandes propriedades no país. O que precisa ser
esclarecido nesse sentido à população?
Pela legislação brasileira, imóveis de um a quatro
módulos fiscais são considerados como pequena propriedade, de cinco a 15 são
média propriedade e, acima de 15, grande propriedade. E o módulo varia de região
para região de acordo com qualidade do solo, clima, infraestrutura, proximidade
dos mercados. Tudo isso influi na definição do módulo fiscal de tal maneira que
há módulos de 5 hectares, próximos aos grandes centros, até 110 hectares, que é
o maior que temos no Brasil. Com a proposta do limite em 35 módulos fiscais, o
tamanho variará de 175 hectares, próximo aos grandes centros, o que é muito, até
3.500 hectares em áreas mais distantes como a Amazônia. Veja que a proposta não
está propondo acabar com a grande propriedade, que é acima de 15 módulos
fiscais, está apenas acabando com as gigantescas - trata-se de reduzir a
desigualdade e não acabar com ela. Então, não é no nível de radicalidade que
alguns países fizeram.
Há países no mundo que estabeleceram limites muito mais
restritos para a propriedade da terra, como no Japão, onde o limite é de 12
hectares, ou na Coréia do Sul, que é de três hectares. O limite que estamos
propondo para o Brasil chega a 3.500 hectares e isso significa que propriedades
do tamanho de aproximadamente 3.500 campos de futebol poderiam ser permitidas no
país, variando de região para região. É uma proposta extremamente eficaz porque,
atingindo apenas 50 mil imóveis, o que corresponde a 2% dos imóveis rurais do
Brasil, seria possível obter 200 milhões de hectares para a reforma agrária.
Isso corresponde a quase 40% do total da área dos imóveis do Brasil. Portanto,
atingindo muito poucos, permitiria-se um avanço muito grande da reforma agrária,
beneficiando muitas populações do campo e da cidade. É uma medida com impacto
extremamente positivo do ponto de vista social no Brasil.
Existe uma
dimensão da demanda por terra no país?
Existem várias
projeções em relação a isso. Há aquelas que trabalham com número de famílias
acampadas, que seria a demanda mais direta pela terra, cuja estimativa é
de 150 a 200 mil famílias acampadas. Tem uma estimativa que toma como base uma
proposta do
governo Fernando Henrique,
de cadastro de interessados via correio, que chegou a 800 mil famílias
cadastradas. E há dados do
Censo Agropecuário
que apontam os que seriam os assalariados em condição precária no campo: os
arrendatários, parceiros, de forma geral, os trabalhadores rurais sem terra -
que chegariam a quatro milhões de famílias aproximadamente. Se agregarmos isso
ainda a milhões de famílias que foram expulsas do campo e vivem precariamente
nas cidades, e algumas delas podem ter interesse em voltar para a terra, isso
poderia chegar a 10 milhões de famílias.
Há variadas possibilidades de mensurar, desde a forma
mais direta até a mais indireta. E de fato a medida poderia resolver
tranqüilamente essa demanda. Neste sentido, o plebiscito é muito importante como
instrumento de mobilização, de conscientização da sociedade em relação aos seus
problemas, assim como os outros plebiscitos populares, como o da Alca, o da Vale
e o da Dívida Externa. O objetivo, sobretudo, é provocar o debate na sociedade
sobre a importância destas questões. E neste caso, a importância fundamental que
tem a reforma agrária para o campo e para a cidade, para transformar esta
realidade brasileira.
O plebiscito tem
dois objetivos fundamentais: o primeiro é o de colocar o debate para
a sociedade, e o segundo é, através do número de votos que se obtiver e das
assinaturas que irá se recolher neste processo, poder impulsionar a proposta de
emenda constitucional que visa a estabelecer efetivamente o limite para o
tamanho da propriedade no Brasil. Não temos ilusão de que isto será uma batalha
fácil, pelo contrário, mas é através do plebiscito que se coloca isso mais
amplamente para a sociedade, o que pode vir a gerar a pressão popular
necessária para que isso possa acontecer. De alguma forma o plebiscito da Alca
teve esse efeito, pelo menos tensionou o governo brasileiro para a questão e
demonstrou que havia uma quantidade expressiva de brasileiros que rejeitava a
proposta da
Alca.