Casa do Migrante oferece
teto, comida e esperança há 30 anos
Keka Werneck, da Assessoria
de Imprensa do Centro Burnier Fé e Justiça (65-9922-9445)
Salgueiro
é uma empobrecida cidade do sertão de Pernambuco, de onde veio o nordestino
Edvaldo da Cruz Neves, 44 anos, de ônibus, em busca de trabalho. Ele viajou
cerca de 3 mil quilômetros, parando de
déu em déu, até aqui chegar. Quando aportou em Cuiabá, dia 1 de agosto deste
ano, ou seja, há 24 dias, o parco dinheiro que trouxe já tinha acabado. Sem nada
no bolso, sem teto, sem comida e sem conhecer ninguém por aqui, ficou sabendo
que o Centro de Pastoral para Migrantes (CPM) acolhe os que, como ele, por algum
motivo, estão em trânsito na vida.
Edvaldo é uma das 205.088 pessoas para quem, em 30 anos de existência, a Casa do
Migrante foi abrigo, alimento e esperança, em momento de incerteza e
dificuldade. Este mês a Casa completa três décadas, prestando este serviço
social fundamental em um Estado onde ainda hoje ocorrem “ondas” de migração. A
data de fundação é 17 de agosto de 1980.
Ontem,
Edvaldo estava feliz. Conseguiu um emprego de pedreiro com carteira assinada em
Cuiabá. “Isso eu não tinha há anos”, diz ele. À noite, ligou para a mulher, que,
junto com a filha de 3 anos, esperava ansiosa, lá em Salgueiro, por uma boa
notícia. “Mandei dinheiro e vocês já podem vir”, avisou Edvaldo, que só
frequentou escola até a quinta série. “Agora me deu uma vontade de voltar a
estudar... Ainda não sei como vou fazer isso, mas vou conseguir!”
“Gente
é para brilhar”, diz a frase, na porta da Casa do Migrante. Mais adiante, outra
frase pintada na parede deseja que “Deus abençoe quem chega e quem parte”. Em um
banner, uma homenagem ao beato João Batista Scalabrini, pai dos migrantes. Mais
à frente corredores levam aos 75 leitos, aos banheiros e à cozinha. Nove
funcionários cuidam da Casa: administram, fazem a limpeza e as três refeições do
dia - café da manhã, almoço e janta.
Eliana
Vitaliano coordena a Casa. Segundo ela, o princípio básico que os rege é a
acolhida. “Isso é fundamental”, diz ela.
Para
quem pensa que só homens passam por essa situação, não é verdade. Em 30 anos de
serviços prestados pela Casa, passaram por ali 55.627 famílias. Dava para povoar
uma cidade do tamanho de Rondonópolis, que é a terceira maior de Mato Grosso. Só
menores de 18 anos foram 67.735.
Marcos
Gomes tem hoje 22 anos. Mas, assim como esses 67.735 menores citados, já
precisou de muitos abrigos, quando ainda não havia chegado à maioridade. Ele foi
abandonado pela família bebê. Cresceu em orfanatos e na rua. “Fui criado no
trecho”, resume ele, que nasceu em Peixoto de Azevedo (a 696 quilômetros de
Cuiabá). Sua última parada, havia sido Santo Antônio do Leste (GO). Metade do
tempo Marcos passa trabalhando; outra metade, parado, ou melhor, buscando
emprego. Não tem formação alguma; jamais foi à escola. “Sou totalmente
analfabeto. A pior coisa do mundo é enxergar e não saber o que vê”, lamenta.
Os
analfabetos, como Marcos, e semianalfabetos - pessoas que só sabem riscar o nome
- são maioria na Casa do Migrante.
Dias de sossego
Há 15
dias Marcos chegou em Cuiabá. Estava se sentindo mal de saúde. Foi à Policlínica
e lá teve vontade de conversar com o único parente que diz ter: “Deus”. Na
Policlínica, informaram a ele sobre a Casa do Migrante. “Aqui, nesses dias,
estou vivendo uma maravilha, uma benção, um sossego”.
Há, porém, abrigos que são violentos, onde as pessoas
têm que dormir com um olho aberto e outro fechado. “Aqui isso não acontece, o
ambiente é tranquilo”, afirma Fernando Luiz Quirino, 51 anos, divorciado, sete
filhos, de Natal (RN). Ele é daquele tipo que, como dizem, “pegou espírito de
trecheiro”. Motorista de carreta há
muitos anos, não sabe ficar parado. Cuiabá é só uma pausa momentânea. Ele vai
seguir para Porto Velho (RO), tentar serviço na construção de uma barragem. Mas
já foi alertado sobre os riscos do trabalho escravo. “Eu já sei que eles pegam a
gente, tudo em bando, e depois não tem garantia se as promessas serão cumpridas.
Mas estou desde novembro desempregado. Vou ficar de olho aberto e tentar”. Na
quinta-feira, Fernando segue viagem. “Agradeço por tudo recebi aqui, estava sem
dinheiro e com a roupa suja. Nessa hora, esse apoio é muito importante”.
Trabalho escravo
Parte
dos que chegam à Casa do Migrante é vítima do trabalho escravo, que ainda ocorre
em Mato Grosso.
É para
esse grupo que a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE) em
parceria com a Casa do Migrante ofereceu um curso profissionalizante de
eletricista para 15 homens e uma mulher. Primeira turma de um projeto refletido
pela Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo (Coetrae), criada pelo
Governo do Estado em 2007. Foi um ano de formação. Para estudar, cada um dos
contemplados ganhou bolsa. A SRTE está agora montando outro curso, para 25
homens. O objetivo é coibir a reincidência e de fato mudar a vida dessas
vítimas.
A
Coetrae é mais recente que o Fórum Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo
(Foete), criado dia 6 de abril de 2004. É o Fórum que vem fazendo pressão contra
esta prática perversa, que desfaz famílias e fere os direitos humanos. Muito
dessa luta foi gestada dentro da Casa do Migrante, motivada pelas histórias dos
escravizados e pela necessidade de mudar essa realidade.
Década de 80
Padre
Antenor, que já foi diretor da Casa de 1996 a 2004, veio de São Paulo, onde mora
atualmente, para lembrar a data, junto com muitos daqueles que trabalharam
nesses anos todos por este abrigo. Ele conta que a Casa surgiu em 1980, durante
a Campanha da Fraternidade daquele ano, que tratou justamente sobre o tema
migração. “Para onde vais?” – indagava a Igreja.
“Cuiabá era o corredor de passagem, por causa da abertura da fronteira
agrícola”, lembra padre Antenor. “O pessoal passava por aqui rumo ao Nortão.
Muitos iam até Rondônia e Acre e, quando chegavam aqui, geralmente já estavam
sem dinheiro. Outros já vinham de mão abanando mesmo. A gente atendia até de 100
a 150 pessoas por dia”.
O
prédio que passou a funcionar como abrigo era originalmente uma escola municipal
que nunca funcionou. A Igreja Católica e a Prefeitura Municipal de Cuiabá
sensibilizadas pelo problema social da migração trocou a função do prédio de
escola para abrigo.
O
padre Antenor é da congregação dos scalabrinianos, cuja missão original era
atender imigrantes italianos que vieram para o Brasil no final do século 19. Por
isso, fazia muito sentido ele ir trabalhar na Casa do Migrante logo de início.
Missões afins. E ele foi. “Nesse período era de interesse do Governo Federal
ocupar a Amazônia e as fronteiras Norte. Essa era inclusive uma proposta dos
governos militares, que facilitavam o atendimento ao migrante. Havia dinheiro
para passagens. E muitos dos que chegam à Casa do Migrante não precisavam mais
que dois dias de teto”.
Década de 90
Houve,
porém, momentos difíceis para a Casa, com a chegada da década de 90. A Igreja
assumia a maior parte das responsabilidades em muitos períodos. A conjuntura era
de retorno, ou seja, os que foram rumo ao Norte por algum motivo não se
acertaram lá e voltavam também em levas. Famílias passavam por aqui menores,
arrebentadas, porque havia morrido muitos por lá, de malária, de
enfraquecimento, de violência.
A Casa
do Migrante, nesse período, não deixava de ser importante pelos mesmos motivos.
Dar teto, comida, acolhida, esperança.
“Esse
retorno quase sempre não era para a cidade natal, mas para outras alternativas
e, por isso, esses já precisavam de mais tempo na Casa”, destaca padre Antenor.
“Muitos tentavam emprego na capital e ficavam em Cuiabá. Ou conseguiam em
fazendas próximas. Assim, formou-se um exército de trabalhadores itinerantes e
alvos fáceis para o trabalho escravo”.
2000
O
agronegócio entrou em seu auge e as políticas favorecendo a ampliação de
lavouras e pecuária provocaram novos deslocamentos, desta vez mais para dentro
dos rincões de MT. Isso exigia força braçal para abrir picada e assim que o mato
era cortado a tendência era, e é, dispensar a força humana e comprar máquinas,
sobrando gente a esmo.
Além
disso, intensificaram as fiscalizações contra o trabalho escravo, ocasionando a
soltura de levas de braçais encontrados em situação degradante.
Essa
conjuntura atual tem levado à Casa do Migrante muitos fugitivos da servidão
contemporânea, que chegam denunciando o trabalho escravo.
O
olhar mais atento para esta prática move ações que garantam os direitos humanos
das vítimas e, nesse sentido, o Centro Burnier Fé e Justiça tem orientado
encaminhamentos importantes.
A
barraca no meio do mato, água insalubre, a alimentação racionada, a dívida por
servidão. Tudo isso ainda é uma realidade para os tantos homens e mulheres
resgatados pela fiscalização.
Voluntários
Aos
sábados, domingos e feriados, voluntários é que trabalham na Casa do Migrante.
Conforme Eliana Vitaliano, coordenadora do abrigo, na Casa estão faltando
atividades culturais, de lazer, cursos profissionalizantes e palestras
informativas, para que, quando deixarem esse espaço, os abrigados saiam
diferentes, melhor preparados para a vida, resgatados de fato e de direito.