A partir de 21 de agosto, humanidade estará consumindo as reservas ecológicas da
Terra
Em poucos dias, no dia 21 de agosto, teremos desperdiçado todo o capital que o
planeta colocou à nossa disposição neste ano. Teremos utilizado toda a água que
se recarrega espontaneamente nas camadas subterrâneas, as ervas que os campos
produzem, os peixes do mar e dos lagos, as colheitas das terras férteis, o
frutos dos bosques.
E, ao mesmo tempo, teremos exaurido o espaço útil para amontoar os nossos
detritos, começando pelo gás carbônico que está desencadeando o caos climático.
A partir do dia 22 de agosto, se deveria declarar a falência ecológica da
espécie humana.
A reportagem é de Antonio Cianciullo, publicada no jornal La
Repubblica, 17-08-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Mas, visto que parar é impossível, e as alternativas continuam na gaveta,
resolveremos o problema repassando a conta para os nossos netos: deslocaremos o
problema para o futuro. Pegaremos a água que corre nos depósitos fósseis,
aqueles que não se alimentam com as chuvas. Forçaremos o ciclo do pastoreio
sacrificando os campos no deserto. Esvaziaremos mares e rios das várias formas
de vida, retirando mais do que a restituição geracional oferece. Continuaremos
perdendo uma superfície florestal igual a 65 campos de futebol por minuto. E
deixaremos que os gases poluentes invadam a atmosfera, prendendo o calor sobre a
nossa cabeça e multiplicando as enchentes e os incêndios.
O alarme vem da Global Footprint Network, que há muitos anos calcula a
pegada ecológica
que corresponde aos vários estilos de vida. Se todos vivêssemos como os cidadãos
dos EUA, precisaríamos de outros quatro planetas para satisfazer as
nossas exigências. Se vivêssemos como os ingleses, seriam necessários outros
dois países e meio. Os italianos consomem um pouco menos, mas também precisamos
de um suplemento igual a mais de um planeta e meio. Para chegar a uma média per
capita (embora uma média temporária, dada a taxa de crescimento), deve-se tomar
os chineses como ponto de referência. Os indianos, ao contrário, usam aquilo que
precisam e deixam os recursos de mais de meio planeta à disposição de outras
espécies.
Tirando as somas globais, descobre-se que hoje já se consomem os recursos de um
planeta e meio, e a taxa de voracidade continua aumentando. Por milhares de
anos, os seres humanos satisfizeram suas necessidades utilizando só os juros do
"capital natureza". O limite crítico – o momento em que a demanda de serviços
ecológicos superou a taxa com a qual a natureza os regenera – foi tocado no dia
31 de dezembro de 1986. Em 1987, o a linha vermelha caiu no dia 19 de dezembro.
Em 2008, ficamos na estaca zero no dia 23 de setembro, enquanto em 2009 o
Earth Overshoot Day foi alcançado no dia 25 de setembro. Neste ano – também
por força de um cálculo mais sistemático dos campos efeticamente disponíveis –,
teremos que começar a pedir empréstimos a nossos netos já no dia 21 de agosto.
"Se uma pessoa gastasse o seu salário anual inteiro em oito meses, teria que
estar muito preocupada", comentou
Mathis Wackernagel,
presidente da Global Footprint Network. "A situação não é menos alarmante
quando tudo isso ocorre com o nosso crédito ecológico: as mudanças climáticas, a
perda da biodiversidade, a falta de alimentos e de água demonstram que não
podemos continuar financiando os nossos consumos endividando-nos. A natureza
está prestes a perder a confiança na nossa conta ambiental".
Porém, como nota Roberto Brambilla, que trabalha no cálculo da pegada
ecológica para a rede Lilliput, para começar a reduzir o nosso impacto no
ambiente basta pouco: comer menos carne, preferindo a do circuito biológico,
utilizar bicicleta ou metrô algumas vezes, usar fontes renováveis. A soma de
milhares desses pequenos gestos faz a diferença entre os consumos de um
norte-americano (que tem uma pegada ecológica de nove hectares) e o de um
alemão, que é de quatro hectares.