Editorial – Brasil de Fato – edição 389 - de 12 a 18 de agosto de 2010
Elementos determinantes da campanha eleitoral
ESTAMOS HÁ cerca de 50 dias das eleições mais importantes da vida
institucional do país. Vamos eleger presidente da República, senadores,
deputados federais, governadores estaduais e os parlamentares das
assembleias legislativas estaduais.
Não há, no entanto, um clima de debates de ideias e de agitação política
na sociedade. Parece que as campanhas eleitorais estão engessadas,
moldadas por uma legislação que impede uma participação popular mais
ativa. Limita comícios e atividades de agitação política próprias da
natureza do processo. A burguesia brasileira reduziu a campanha
eleitoral à propaganda na televisão, a
marketing
de pessoas – não de programas – que dependem
de esquemas econômicos muito caros. A compra de cabos eleitorais –
“militância” paga e material
de propaganda sofisticados – se tornou um fato normal.
Com isso, tem mais vantagem os candidatos que conseguem maiores
arrecadações de recursos, junto a empresas, bancos etc., em mecanismos
no mínimo promíscuos para quem deseja ocupar cargos públicos e
administrar volumosos recursos do povo. Com isso, transformam a campanha
num grande mercado eleitoral, no qual tudo se compra, tudo se paga. Ou
seja, não existem mais cabos eleitorais motivados por ideologia ou
programas; não existe mais trabalho voluntário de campanha; não existe
mais os métodos populares de debate de ideias, de convencimento, de
disputa e agitação política entre militantes e a população em geral.
Nesse cenário, há também o componente do período histórico que vivemos.
A classe trabalhadora brasileira vivencia uma longa etapa de refluxo do
movimento de massas, que vem desde a derrota político-ideológica para o
neoliberalismo e a vitória dos governos Collor-FHC.
Então, há muita confusão ideológica e divisionismo, pela derrota
política sofrida pela esquerda e pelo abandono das ideias socialistas
por muitos setores que levam a desvios oportunistas entre candidatos de
todo tipo.
Além disso, há uma desarticulação política das organizações de massa,
que reduziram seus programas. Embora, justiça seja feita, houve
tentativa de diversos segmentos organizados para discutir programas para
o país. Nesse sentido é louvável o esforço da CUT e de outras centrais
sindicais, que produziram uma proposta de governo que está mais à
esquerda do que os programas dos partidos. Também é louvável o esforço
da Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) em costurar um programa de
desenvolvimento nacional com a ótica dos trabalhadores, uma espécie de
programa mínimo. E foi importante o esforço da Assembleia Popular em
debater e produzir um programa de longo prazo, baseado no espírito do
Brasil que precisamos.
Porém, todas essas iniciativas, importantes, não conseguiram ainda
influenciar e determinar o debate entre os candidatos, em todos os
níveis.
Condicionantes do melhorismo
O cientista político André Singer defendeu – em entrevista publicada na
edição 374 do
Brasil de Fato
– algumas hipóteses que podem nos ajudar a entender o que estaria
acontecendo com as massas. Segundo ele, a principal base social do
governo Lula e de sua candidata, Dilma, seria agora um subproletariado,
que é a maior parte da classe trabalhadora brasileira. Mas que não tem
tradição de organização nem consciência da luta de classes. Melhorou
suas condições de vida, o que o leva a apoiar o governo e sua candidata,
mas sem querer disputa e conflitos. É a letargia das massas que apoiam o
melhorismo. E são a maioria da população.
As candidaturas a presidente
Entre as candidaturas a presidente, o cenário, seus atores e o
script
já estão definidos. Não estão em jogo programas de partidos. As siglas
estão mescladas e, às vezes, juntam interesses oportunistas e até
antagônicos. Tampouco estão em jogo as biografias pessoais, ou
compromissos com a classe trabalhadora e os mais pobres. O que está
posto são forças sociais que se alinharam com este ou aquele candidato,
e isso está determinando o resultado eleitoral, cujo desenlace terá
poucas mudanças até o dia 3 de outubro.
Como afirma João Pedro Stedile em entrevista
(págs. 4 e 5),
atrás da candidatura Serra estão as forças do capital mais atrasadas e
subservientes ao império. Os grandes bancos, a grande indústria
paulista, o latifúndio atrasado de Kátia Abreu e o agronegócio “moderno”
do etanol. Seu programa é um só: a volta do mercado, benefícios para as
empresas e a repressão para conter as demandas sociais. Seria a
prioridade no programa dos PPPs já aplicado em São Paulo: privatizações,
pedágios e presídios.
A candidatura Dilma representa a continuidade do governo Lula e tem
forças sociais entre a burguesia mais lúcida (temerosa da reação das
massas), setores da classe média que melhoraram de vida e amplos setores
da classe trabalhadora. Praticamente todas as forças populares
organizadas têm sua base social apoiando a candidata petista.
A candidatura Marina, apesar de seus vínculos passados com o PT e o
governo Lula, não conseguiu sensibilizar a classe trabalhadora e reúne
apenas forças sociais representadas por setores ambientalistas da classe
média urbana dos grandes centros. E por isso seu potencial eleitoral é
muito pequeno.
E, por fim, temos três candidaturas de partidos de esquerda, com três
lutadores do povo, de compromisso histórico com a classe trabalhadora.
Mas nenhum deles conseguiu aglutinar força social organizada. E isso
impede progressos eleitorais.
Os movimentos sociais
Os movimentos sociais em geral, e em particular a Via Campesina, que
sustentam a proposta do jornal
Brasil de Fato,
têm adotado uma postura política de evitar adesões explícitas a
candidaturas. Mas todos eles manifestaram publicamente a decisão
política de não medirem esforços para derrotar a candidatura Serra. A
vitória do tucano seria a volta do neoliberalismo e do desprezo aos
movimentos sociais. Quem tiver dúvida basta analisar o que foram os 16
anos de governo tucano em São Paulo. E nisso o candidato Serra tem sido
honesto. Quando perguntado pelo Jornal da Band o que acha do MST e da
reforma agrária, respondeu secamente que iria criar o Ministério da
Segurança Nacional. Mais claro impossível.
As forças que o sustentam são a burguesia mais reacionária e corrupta
desse país. E, certamente, o Departamento de Estado dos Estados Unidos
está torcendo muito por sua vitória, para, com isso, alterar a
correlação de forças na América Latina e fazer com que a bússola se mova
para a direita e para o norte.
Por todos esses elementos, o nosso jornal se soma à decisão política dos
movimentos sociais que o sustentam de contribuir para a derrota de
Serra, torcendo para que haja mudanças progressistas em todos os níveis
das eleições. E que se reative o clima de debate de programas e de
ideias na sociedade brasileira.