Publicado em A Nova
Democracia, nº 68, agosto de 2010
SAIR DA CRISE?
Contas externas
No artigo publicado em junho de 2010, “O Brasil
e o Colapso Mundial”, apontei que o
Brasil deixou, desde a crise de 2007/2008, de ter saldos positivos nas
transações correntes com o exterior e que, no 1º trimestre de 2010, o déficit
dessa conta atingiu recorde: mais de US$ 12 bilhões.
2. Agora dispomos dos dados para todo o 1º semestre,
período em que esse déficit atingiu US$ 23,8 bilhões. Só não aumentou mais,
porque em maio entraram em cena as exportações ligadas à safra agrícola. Mas em
junho o ritmo de crescimento do déficit acelerou-se novamente.
4. Isso significa que o déficit de “rendas e serviços”
foi de nada menos que U$ 33,21 bilhões. Nesta conta predomina o peso das
“rendas”, com U$ 19,4 bilhões, quantia da qual estão deduzidos os rendimentos de
capitais brasileiros no exterior.
5. Portanto, o capital estrangeiro prossegue remetendo
vultosos lucros ao exterior, não obstante o Brasil vir tendo medíocre
crescimento econômico, valendo, ademais, notar que os rendimentos líquidos
oficiais das transnacionais não incluem os serviços superfaturados e fictícios,
nem o subfaturamento de exportações e o superfaturamento de importações.
6. O próprio comércio de
mercadorias, i.e., a balança comercial, confirma estar o Brasil afundando no
em
subdesenvolvimento. De fato, quando se trata
7. O balanço de pagamentos está
sendo falsamente equilibrado com ingressos líquidos de investimentos
estrangeiros, diretos
8.
Continua, portanto, elevada e ascendente a saída
9. Aumenta, desse modo, a já excessiva ocupação dos
mercados de bens e serviços, via investimento direto estrangeiro, e a exploração
dos mercados financeiros por parte do capital estrangeiro de curto prazo.
10. Pode-se estimar uma provável crise externa do Brasil,
ainda este ano, já que a depressão mundial está cada vez mais enraizada, e a
derrocada financeira se apresenta iminente. A primeira implica queda nas
receitas de exportação, e a segunda, saída de capitais para cobrir rombos nos
EUA, Europa e Japão.
“Investindo”
com o nosso dinheiro
11. Predomina cada vez mais na economia brasileira o
capital das empresas e bancos transnacionais. A implantação destas no Brasil foi
grandemente favorecida por subsídios governamentais. Além disso, a política
econômica prejudicou, pelo menos comparativamente, as firmas de capital
nacional.
12. Desse modo, as transnacionais foram estendendo e
aprofundando seu controle sobre os mercados, bastando-lhes aproveitar os
subsídios e investir os ganhos obtidos no Brasil. Nos últimos decênios vêm,
ademais, recebendo vultosos empréstimos do BNDES, o banco federal de
desenvolvimento, a juros favorecidos.
13. Assim, para explorar os mercados, em condições de
oligopólio, nem precisam, nem nunca precisaram, fazer ingressar no País
quantidade significativa de dólares.
Moeda falsa
14.
Para as aplicações especulativas, o capital estrangeiro tampouco tem qualquer
dificuldade, pois os dólares são emitidos a rodo, não havendo garantia alguma de
que os aqui convertidos em reais não passem de falsos ativos monetários criados
em computadores
15. Além disso, a emissão de dólares nos EUA não guarda
relação com alguma coisa de real valor, pois o FED e o Tesouro dos EUA têm
despejado nos bancos trilhões de dólares, na casa dos dois dígitos, com a
finalidade de cobrir os rombos resultantes das jogadas dos próprios banqueiros.
16.
Assim, é muito fácil para os praticantes do “carry-trade”
obter os dólares para convertê-los em reais e auferir ganhos aproveitando o
absurdo diferencial entre as altas taxas de juros aqui praticadas e as baixas
taxas, quando não negativas, prevalecentes no exterior. Além disso, os ganhos da
apreciação da taxa de câmbio do real.
Poder mundial
18. Essa oligarquia sabe quais são as fontes do poder. A
primeira delas é a criação de moeda, controlando os bancos, que o fazem por meio
do crédito, e dominando os bancos centrais, que emitem moeda diretamente, sejam
eles privados, como nos EUA, sejam públicos, como no Brasil.
20. Mas
monopoliza esses metais, cujas minas detém
21. Os controladores dos mercados financeiros geram
oferta falsa do ouro, manipulam seu preço para baixo e tolhem sua procura,
deixando as pessoas sem opção segura de onde pôr as economias, e reféns das
moedas emitidas ao bel prazer da oligarquia e fadadas a brutal desvalorização.
Crise e depressão
25. Enquanto isso, aguarda-se nova crise no quadro do
colapso econômico mundial, caracterizado, de um lado, pela depressão da economia
real com desemprego altíssimo e crescente, e de outro lado, por explosões: a)
empréstimos impagáveis; b) dos títulos, inclusive derivativos, com alto valor
nominal e quase sem valor de mercado, em parte já empurrados para os governos;
c) a dos títulos da dívida pública dos EUA, de países europeus e do Japão; d) os
reflexos disso tudo nas economias periféricas, como a brasileira.
26. Tudo isso é problema nosso. É dos povos e de
verdadeiras lideranças que os queiram conduzir à libertação. Os concentradores
do poder não vêem problema algum nas crises que criam. Ao contrário, elas lhes
servem para prosseguir concentrando mais poder e retirando de um número cada vez
maior de pessoas os meios que as ajudariam a reagir.
Adriano
Benayon é Doutor em Economia. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento”,
editora Escrituras. abenayon@brturbo.com.br