Ela vai morrer
Jung Mo Sung *
Adital -
Diante da reação internacional contra a pena de morte por
apedrejamento imposta a Sakineh Mohammadi Ashtiani, iraniana de 43 anos, viúva e
mãe de dois filhos, por supostamente cometer adultério com dois homens, o
governo iraniano modificou a acusação de assassinado do seu marido. Isto é, ela
é culpada; precisa ser morta; não importam as provas ou tipo de acusação.
Para o mundo moderno e principalmente para as sociedades
ocidentais, é incompreensível que uma mulher seja condenada à morte por
apedrejamento por causa de adultério. Mas, de acordo com a legislação iraniana,
é a lei. E, em última instância, seria a vontade de Deus, pois em uma teocracia,
como o regime iraniano, não há separação entre a lei civil e a lei religiosa. E
de acordo com a sharia, ou de acordo com a interpretação dada pelos líderes
religiosos do Irã, o adultério é um dos crimes que devem ser punidos com
apedrejamento até a morte.
Mesmo que as pressões internacionais consigam suspender
ou modificar a punição, ou até mesmo provar que ela é inocente das acusações,
essa lei continuará existindo. E diante disso, surge uma pergunta para nós:
devemos interferir na religião do "outro" ou na legislação de um país soberano
em nome de direitos humanos? Se interferirmos, promovendo ou participando de
movimentos de pressão, não estaríamos ocorrendo na soberbia de acharmos que
sabemos melhor o que é a verdade e os valores religiosos islâmicos? Se optarmos
por uma atitude "humilde" e não interferirmos, não estaríamos caindo em uma
atitude de indiferença e até mesmo de cinismo frente aos sofrimentos das pessoas
que sofrem sob peso de leis desse tipo?
É em casos assim, bem concretos e polêmicos, que os
valores abstratos como respeito à religião ou a cultura dos "outros" são
provados ou questionados a fundo. (Aqui não vou discutir o tema da interferência
nas questões internas e de legislação de um país soberano.)
Há pessoas que dizem que essa lei não tem fundamento nos
ensinamentos de Mohamed, nem no Corão e, que por isso, o mal não é do islamismo.
No fundo, é uma tentativa de salvar a tese de que todas as religiões, em sua
essência e origem são boas. Contudo, os líderes religiosos responsáveis pela
"interpretação correta" do islamismo e do Corão em Irã dizem que essa lei está
de acordo com Corão e a vontade de Alá.
Outros aproveitam situações assim para defender a tese de
que todas as religiões são perversas em si ou são coisas do passado e que devem
ser superadas pelos valores humanistas modernos. Esquecem, porém, que há muitas
pessoas islâmicas que, em nome da sua fé, lutam contra esse tipo de
interpretação do Corão ou da tradição islâmica.
Na história do cristianismo ocidental, tivemos também
casos parecidos, como da inquisição ou da caça às bruxas, que foram realizadas
em nome do cristianismo, com apoio das suas autoridades religiosas e da parcela
significativa do povo cristão.
Se olharmos para a história, veremos que casos de
apedrejamento ou punições similares das mulheres adúlteras não são raros. São
punições exemplares e violentas para evitar este grande perigo à vida da
comunidade. Afinal, desejar a mulher do próximo é a "coisa" mais antiga da
humanidade e uma das forças geradoras conflito e da violência entre os homens da
mesma comunidade. (Uma questão que devemos refletir é por que sempre são as
mulheres que são as culpadas e condenadas? A resposta fácil de que é por causa
do machismo não responde a questão porque não explica a razão desse tipo de
machismo.)
No evangelho de João, temos um caso de apedrejamento de
mulher adúltera (Jo 8, 3-11). Não há espaço para uma reflexão mais longa aqui,
mas eu penso que a solução dada por Jesus pode nos ajudar muito ainda hoje. Ele
não nega o erro do adultério, mas também não aprova o apedrejamento. O que me
chama atenção é que ele não discute se a interpretação dada pelos escribas e os
fariseus de que a lei de Moisés manda apedrejar a mulher adúltera está correta
ou não. Ele não resolve a questão no âmbito da discussão teórica ou teológica
sobre correta interpretação da lei divina ou religiosa. Ele desloca a discussão
para outro nível.
Jesus pergunta: "quem dentre vós estiver sem pecado, seja
o primeiro a lhe atirar uma pedra!". A solução verdadeira não está no âmbito da
discussão teórica ou da ortodoxia (cristã ou islâmica), mas no reconhecimento de
que não há inocentes entre nós. Não há mulher adúltera, sem homens adúlteros;
não há adultério sem o desejo da mulher ou do homem do próximo; e não há seres
humanos que não desejam o que é do outro ou da outra. Seja cristão ou islâmico,
moderno ou tradicional, clero ou leigo, ocidental ou oriental, homem ou mulher,
progressista ou conservador, de esquerda ou de direita...
Grupos e instituições que não reconhecem isso estão
sempre à procura de bodes expiatórios. Um grande desafio é pensarmos a ação
política e propostas sociais a partir desse reconhecimento de que nós todos
participamos da ambigüidade humana, dos bons e maus desejos.
[Autor de "Deus em nós: o reinado que acontece no amor
solidário aos pobres", Paulus].
* Coord. Pós-Graduação em Ciências da Religião,
Universidade Metodista de São Paulo