''Ter o coração puro é ver o outro enquanto outro''
Fonte: IHU
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http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=34835
“As Bem-aventuranças,
todas juntas, são o amor. E o amor cristão é um paradoxo completo. É o
impossível por excelência e, ao mesmo tempo, como diz Freud, é
a única resposta que está na altura da violência humana.”
A opinião é do filósofo francês
Jean-Luc Nancy, em entrevista a Élodie Maurot,
publicada no jornal La Croix, 23-07-2010. A tradução é de
Benno Dischinger.
Eis a entrevista.
Como soa, para você, de imediato, o texto das Bem-aventuranças?
Não é um texto que eu tenha o hábito de freqüentar. Digamos que o entendo
principalmente como uma promessa de felicidade, mas que sempre contém o risco de
ser uma falsa promessa. É certamente o texto bíblico para o qual me ponho
imediatamente numa perspectiva crítica e desconfiada, porque as Bem-aventuranças
tem todas aquelas características daquela palavra que dá alívio, que lapida as
arestas, que elimina os obstáculos. Concentram, a meu ver, quanto há de difícil
e de que suspeitar na mensagem cristã. Vê-se nas mesmas demasiado facilmente uma
“boa vontade”, cheia de boas intenções que ficam longe daquilo que, com
Kant, se pode definir uma “vontade boa”. As Bem-aventuranças
colocam-nos sempre diante de um dilema: ou se trata de um pacote de boas
intenções adocicadas, deveras edulcoradas, que procuram seduzir os leitores e os
ouvintes com uma espécie de entorpecimento de sua vigilância, como um ópio dos
povos particularmente poderoso, ou então se trata de algo radicalmente
diverso...
O senhor trabalhou muito sobre a linguagem. É sensível à forma deste
texto?
A grande característica do Evangelho é de ser um livro religioso que não contém
muita doutrina. Um livro no qual a “doutrina” é inteiramente oferecida com
palavras pronunciadas em certas situações. As Bem-aventuranças levam este
paradoxo ao máximo. Estamos no cume do relato evangélico, no momento em que se
poderia esperar um desenvolvimento doutrinal, mas, ao invés, a doutrina não
chega. E Cristo pronuncia as Bem-aventuranças. Isso me faz pensar em
Nietzsche que diz: “Se Cristo tivesse vivido mais tempo, teria abolido
sua doutrina”. Nietzsche manifesta nisto suja profunda compreensão do
cristianismo. Entendeu muito bem que o coração do cristianismo não consistia
numa doutrina, mas numa vida. Este núcleo duro, ético, caso se queira (se esta
palavra não for demasiado desgastada), não se deixa absorver pelas montagens
teóricas, teológicas ou eclesiásticas. É um cerne muito resistente, enquanto a
forma que assume é aparentemente frágil, narrativa, em vez de ser doutrinal, e
seu conteúdo se situa inteiramente na doçura.
Isto permite entender de modo diverso este texto, do qual o senhor
sublinhava agora a ambivalência?
As Bem-aventuranças, todas juntas, são o amor. E o amor cristão é um paradoxo
completo. É o impossível por excelência e, ao mesmo tempo, como diz
Freud, é a única resposta que está na
altura da violência humana. Freud
escreve isto logo após a Primeira Guerra Mundial, quando a
violência se havia desencadeado sob seus olhos. Ali está todo o paradoxo: é uma
resposta impraticável e, ao mesmo tempo, só aquilo resiste! As Bem-aventuranças
levantam o problema do amor cristão e o amor põe imediatamente o problema de seu
caráter “feliz”.
Como entende este “bem-aventurados”, “felizes”, que articula as
bem-aventuranças?
O “felizes” ou “bem-aventurados” do Evangelho ressoa numa sociedade em estado de
profunda desorientação. O mundo no qual nasce o cristianismo é um mundo que
desmorona, que perde suas seguranças, que perde sentido, que é colocado diante
de uma perdas geral dos seus pontos de referência. Um historiador da
antiguidade, que Freud cita no seu Moisés, escreve a propósito
daquela época: “Parece que uma grande melancolia se tenha apossado de todos os
povos do Mediterrâneo”. Esta frase, tão surpreendente para um
historiador, diz uma grande verdade. O mundo politeísta que desaparece é, de
fato, um mundo no qual os deuses, também os maus, também os ameaçadores, estavam
presentes por toda parte. Era um mundo no qual a gente se podia encontrar e
orientar. Ao invés, a época da Roma imperial é um período de
grande angústia e de grande abandono. O estoicismo e o epicurismo que se
desenvolvem naquela época são, de resto, tentativas de responder a esta
desorientação. Estóicos e epicureus são indivíduos atormentados que procuram
desenvolver toda uma série de exercícios para preservar-se daquela
desorientação, embora se resignando.
Qual é a felicidade aqui proposta?
O “bem-aventurados” do Evangelho não quer tanto dar felicidade ou satisfação,
quanto indicar um caminho para sair da angústia. As Bem-aventuranças não
designam felicidade, mas um comportamento, uma disposição geral da vida humana
que foge ao mesmo tempo da angústia e da resignação.
Não é uma resposta que assume a forma de conselhos morais...
De fato, é um pronunciamento um pouco rítmico. É uma arenga, mas não só. É antes
uma exclamação e, por conseguinte, uma celebração. “Bem-aventurado” significa
aqui “glorioso”, “em glória”. É quase como dizer “santo”... As Bem-aventuranças
“colocam em glória” aqueles aos quais elas são dirigidas. São uma celebração
daqueles que estão nas disposições descritas. Não são conselhos ou indicações de
comportamento deduzidas de princípios, mas é a afirmação que “é assim”. É muito
interessante que não esteja no âmbito da exortação moral. Cristo celebra algo e
cabe àquele que escuta tirar proveito disso. As Bem-aventuranças não estão
ligadas a algum processo, a algum comportamento verdadeiramente prescrito. Dizem
antes: há “algo” em vós, “algo” que sois e que deve ser celebrado; este “algo” é
o Reino, é a saída da concatenação dos meios e dos fins, dos possuídos e da
dominação. Como na parábola dos lírios dos campos.
“Bem-aventurados os puros de coração”, diz uma das Bem-aventuranças: o
que significa para o senhor?
O termo grego, traduzido aqui com “puro”, remete ao adjetivo “límpido”. Como se
diz da água que é pura ou límpida. Põe o acento na transparência. O texto grego
diz, de resto, não “os corações puros”, mas “os puros de coração”. Ser puros “de
coração” remete a outro modo de ser puros “de corpo”. Esta diferença impressiona
imediatamente, sabendo-se a importância das purificações e dos ritos associados
à pureza nas religiões antigas e no judaísmo. É preciso conectar esta
Bem-aventurança com toda a tradição profética que critica os ritos e considera
que a purificação dos corpos é insuficiente. Celebrar o “coração puro” cria uma
diferença em relação à observância ritual.
Que elo vê entre ser um “coração puro” e “ver Deus”?
Nas religiões antigas, a purificação tem a função de libertar o homem dos
elementos profanos para permitir-lhe aceder ao sagrado. É o primeiro gesto para
dar um passo no espaço sagrado. Ora, aqui, a possibilidade de ver Deus não está
ligada à permissão de aceder à ordem do sagrado, do separado, do proibido. Esta
Bem-aventurança diz que Deus não é da ordem do sagrado, não se situa “do outro
lado” de uma fronteira que seria preciso superar graças ao rito. Aquele que tem
o coração puro é aquele que pode, graças à limpeza de seu coração, ver Deus.
Como se Deus já estivesse presente, mas não reconhecido?
Quando o coração é purificado, vê Deus. Poder-se-ia dizer que a purificação do
coração faz ver, por si mesma. Não faz ver algo que estava escondido, mas algo
que antes não se via. É muito diverso. Não estamos aqui num desenvolvimento
cultual. A purificação do coração produz sentido por si mesma. Não é o meio para
aceder a outro [patamar], mas um modo para ver de maneira diversa. É uma
abertura ao interior do “mundo”. O coração puro talvez seja “Deus” mesmo.
No seu ponto de vista, em que consiste a purificação?
As Bem-aventuranças fazem ressoar negativamente a grandeza, a potência, a
riqueza, a violência do mundo. A purificação do coração é a purificação de todos
os pesadumes, de todos os domínios e, no limite, de todos os significados do
mundo. O “coração puro” é aquele que se mantém à distância de toda a máquina do
mundo, o que não significa que se mantenha “fora” do mundo. Nem é atraído pela
máxima recompensa que poderia consistir neste “ver Deus”, como forma de
participação no poder ou no domínio, ligada ao desejo de ser admitido junto a
Deus. Não se é “feliz” por uma recompensa, o que continuaria sendo da ordem do
“mundo”, mas se é “feliz” de não estar encerrados “dentro”.
Sem dúvida, para compreender o que é um “coração puro” é preciso voltar àquele
amor que consiste em ver o outro como outro. Trata-se precisamente de ver, isto
é, de estar na relação, sem nada que se possa agarrar. Não se “vê” um objeto, se
“vê” uma abertura, uma evasão em direção ao outro. O que requer o amor senão uma
purificação do coração? Uma purificação das minhas expectativas, para que eu
possa ver o outro como outro. É verdadeiramente através do cristianismo que o
amor se torna este reconhecimento da absolutez integral da pessoa. O amor remete
àquilo que nós absolutamente não podemos agarrar. Talvez isto é “ver Deus”. Não
vê um ser atrás de outros seres, mas ver que todo ser é absoluto,
incomensurável.