Os movimentos sociais e a retomada do comunitarismo
Na entrevista que segue, concedida, por e-mail à IHU On-Line,
Ivo Poletto reflete sobre a trajetória dos movimentos sociais e a atuação deles
diante da atual conjuntura. A novidade, segundo Poletto, “é a emergência da
consciência e de objetivos ecológicos nos movimentos recentes”. Os desafios
postos pelas mudanças climáticas, acredita, podem significar a retomada do
ideário comunitário, o qual, para Poletto, “continua válido e necessário”. “A
consciência que levará a revalorizar a comunidade de vida será nova. Ela deverá
estar assentada sobre a necessidade de recriar as relações com a Terra,
assumindo que os humanos são parte dela e que só podem Bem Viver se ela estiver
viva e for fonte permanente de vida”, frisa.
Ivo Poletto é filósofo, teólogo, educador popular e assessor
de pastorais e movimentos sociais. Trabalhou durante os dois primeiros anos do
governo Lula como assessor do Programa Fome Zero e foi o primeiro
secretário-executivo da Comissão Pastoral da Terra - CPT. É autor de, entre
outros, Brasil, oportunidades perdidas – Meus dois anos no governo Lula (Rio de
Janeiro: Garamond, 2005).
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Os movimentos sociais estão em crise ou não?
Que fatores indicam isso? Como o senhor descreve o atual momento dos movimentos
sociais?
Ivo Poletto -
É difícil dar uma resposta a estas perguntas. Em primeiro lugar, porque um dos
fatores que estariam na raiz de sua crise, segundo alguns estudiosos, a saber: a
eleição e o governo Lula, deve ser bem analisado para não cometer injustiças com
os movimentos sociais. Na sua origem, a eleição de Lula foi uma vitória
histórica dos movimentos sociais; não se pode negar que foram eles, e talvez
mais do que o próprio PT, que tornaram possível este acontecimento que renova a
história política brasileira. Sem sua mobilização social e seu estímulo à
desobediência popular ao “maior partido conservador”, a grande mídia, teria a
maioria da população superado sua tendência conservadora e votado num “brasileiro
qualquer” – pobre, nordestino, operário, quase analfabeto, que vem das esquerdas,
que não sabe falar corretamente, que não tem experiência de governo, e tantas
outras desqualificações – para o cargo de Presidente da República?
Lula e os movimentos sociais
Sou do parecer que a eleição de Lula foi fruto da decisão
livre da cidadania, mobilizada politicamente, em boa medida, pelos movimentos
sociais urbanos e rurais, incluindo aqui também a ação das pastorais sociais.
Tanto que, em minha compreensão dos fatos, não era necessária a “Carta ao Povo
Brasileiro” para vencer as eleições; ela foi importante para derrubar barreiras
no meio empresarial e para o que o “núcleo duro” transformou o governo Lula: um
governo de mediação entre as classes e setores sociais, servindo mais, muito
mais, às classes economicamente dominantes para evitar conflitos; um governo que
assenta a governabilidade na aliança por cima, nas instituições estatais,
esquecendo ou preferindo não governar com a maioria da cidadania que o elegera
para realizar mudanças profundas na sociedade brasileira, novamente para evitar
conflitos.
Diante de um governo que se torna a alavanca para o grande
capital “nacional”, firmar-se internacionalmente em ser o principal agente e
beneficiário do neodesenvolvimentismo, e que, ao mesmo tempo, implementa
políticas sociais muito melhores do que os governos anteriores – sem mudanças
estruturais, e talvez para evitá-las, pois causariam conflitos -, como devem
agir os movimentos sociais?
Crítica dos movimentos sociais
Esse é o “caldo político” em que vivem e atuam os movimentos
sociais. Não é estranho, então, que quase todos eles sejam radicalmente críticos
em relação aos grandes projetos do PAC, mas, ao mesmo tempo, sejam críticos em
relação às políticas e projetos sociais, sem, contudo, deixar de reconhecer que
trazem novidades e podem ser pontos de partida para avanços na conquista de
direitos e na formulação e controle de políticas públicas de maior alcance e
qualidade.
Por isso tudo, a crise dos movimentos sociais tem a seguinte
base: eles não têm força sociopolítica suficiente para serem ouvidos com
seriedade quando criticam os grandes projetos e quando propõem alternativas para
um desenvolvimento que não seja mero “crescimento econômico”, e sim um
verdadeiro desenvolvimento social e humano, com respeito e convivência com o
meio ambiente; e não têm força sociopolítica suficiente, igualmente, para exigir
que os compromissos assumidos em relação às políticas sociais sejam
transformados em práticas, e não abandonados para atender às pressões dos
minoritários grupos dominantes.
IHU On-Line - Quais são as maiores dificuldades que os
movimentos sociais encontram hoje?
Ivo Poletto -
Vejo que os movimentos sociais partilham da crise que perpassa toda a sociedade
brasileira, inclusive os intelectuais e parte do funcionalismo público: a crise
em relação ao sentido da democracia. Afinal, o governo, uma vez eleito, pode
fazer o que quer? A soberania popular pode ou deve controlar os mandatos
concedidos? Como? Pode um Congresso Nacional reservar para si o poder de decidir
sobre convocação de plebiscitos? A quem cabe decidir sobre projetos que
interferem gravemente na vida de povos indígenas e outras comunidades? : a) a
grupos técnicos contratados? b) ao governo, mesmo contra a vontade da população
atingida? c) ao parecer ou pressão dos grupos econômicos? d) ao poder soberano
do povo da região atingida? e) ou ao poder soberano popular nacional, para
decidir se realmente a obra é necessária para garantir energia ou se há
alternativas menos agressivas ao ambiente da vida?
Como se pode perceber, movimentos sociais são expressão da vida democrática; se
a democracia praticada é mais ou menos de fachada, maior ou menor sua
dificuldade de ação.
IHU On-Line - Qual é, em sua opinião, o movimento social mais
ativo no país? De que maneira ele consegue se destacar na sociedade?
Ivo Poletto -
É necessária uma ponderação inicial: para que não se faça uma avaliação injusta,
é preciso verificar, entre outros fatores, a relação entre o movimento e sua
base social; ver quanto tempo de existência cada movimento tem; verificar a
existência ou não de ambiente favorável à ação sociopolítica que cada movimento
mobiliza.
Tomemos dois, três exemplos: o MST, o Movimento dos Catadores
de Materiais Recicláveis e a ASA – Articulação do Semi-Árido (que mesmo não
sendo estruturalmente um movimento social, já conta com mais de 1 milhão e
trezentas mil pessoas mobilizadas em favor convivência com o Semi-Árido).
O MST existe desde 1984, e nasceu de muitas iniciativas
pré-existentes, mobilizando os Sem-Terra em favor de uma causa que tem longa
história; conta com muitos militantes, e assim mesmo vale a pena verificar
quanto consegue mobilizar dos milhões que são sua base social. Já o Movimento
dos Catadores de Materiais Recicláveis tem uma história recente, constituiu-se a
partir de relativamente poucas iniciativas anteriores, só a duras penas vai
conseguindo romper os preconceitos com que são vistos os moradores de rua; assim
mesmo, tem uma razoável relação de representatividade da sua base social.
Com isso, relativiza-se a maior ou menor importância de cada
movimento. Pode-se dizer que os catadores/as conseguiram relativamente mais do
que os sem-terra, se a avaliação levar em conta os objetivos e as conquistas
alcançadas. Da mesma forma, o movimento pela convivência com o Semi-Árido pode
ter alcançado mais do que os catadores e sem-terra. Isso não retira mérito,
contudo, das avaliações de que, em termos de capacidade de mobilização política,
de iniciativas de pressão, de construção de espaços com iniciativas
alternativas, o movimento mais expressivo seja o MST – sabendo que a luta pela
terra conta também com a força da diversidade de movimentos de luta pela terra
existente no Brasil, bem como de sua capacidade de estabelecer alianças.
IHU On-Line - O senhor identifica novos movimentos sociais
nos dias de hoje? Quais as características e motivações deles?
Ivo Poletto -
Mesmo com a existência e os méritos do MAB – Movimento dos Atingido pelas
Barragens, estão nascendo, nos últimos meses, movimentos como o “Xingu Vivo” e o
“Tapajós
Vivo”, apenas para citar dois exemplos. E com enorme capacidade de
mobilização. Contra a hidrelétrica Belo Monte, no Xingu, além e até por causa de
ampla aliança entre povos indígenas, camponeses e povo da cidade, juntando
igrejas, sindicatos e até associações comerciais, está conquistando amplo apoio
internacional, ao ponto de contar com a adesão de J. Cameron, diretor do filme
de sucesso AVATAR, o que pode ser sinal de uma ampla solidariedade e pressão
internacional. Assim mesmo, cederá o teimoso consórcio entre grandes empresas e
governo federal? Povos indígenas já avisaram: “não deixaremos as máquinas
começarem a obra”. O governo tentará evitar este conflito, que nasce a partir da
reação popular, como faz quando é anunciado pelo agronegócio e por outras
grandes empresas? Ou envolverá o Exército na obra, como já fez no contestado
projeto de Transposição do São Francisco?
Novidade dos movimentos sociais
O que se percebe de novo, talvez, é a emergência da
consciência e de objetivos ecológicos nos movimentos recentes. Além disso, como
nascem de desafios muito concretos, as forças sociopolíticas mobilizadas são
diversificadas; menos com viés de “classe”, se desejarmos.
Outra novidade: enfrentando-se com um governo que não
criminalizou – mas pouco fez para que não fossem duramente criminalizados – os
movimentos sociais, esses movimentos recentes se ressentem de estar combatendo
um governo que ajudaram a eleger, e sofrem diante da dureza com que não são
ouvidos, ou com a quase inutilidade dos espaços de diálogo; são movimentos que
enfrentam ameaças a direitos humanos e da Terra por causa de políticas de
desenvolvimento que privilegiam interesses de grandes empresas, seja na
implementação da obra como no destino final do produto.
Vale destacar outra novidade: o aprendizado de organização e
atuação em rede. Esta é uma prática muito desafiadora, pois mexe com a tradição
centralista e diretiva que ainda marca muitas lideranças. Trata-se de aprender a
agir com a democracia como um valor, e não como um instrumento, uma tática.
IHU On-Line - Em sua opinião, ao longo de sua trajetória, os
movimentos sociais conseguiram construir, ou não, uma institucionalidade
pública?
Ivo Poletto -
Mais uma vez, a necessidade de matizar a resposta: não resta dúvida que houve
avanços na linha de uma nova institucionalização – e, para isso, bastariam ter
presente as conquistas das iniciativas e movimentos ligados à superação da
miséria e da fome, que hoje já contam até com uma Lei de Segurança Alimentar e
Nutricional; e ter presente os avanços do movimento da Economia Solidária,
alimentado por um número crescente de iniciativas e redes, que já luta por uma
Lei que reconheça e regule a especificidade deste tipo de economia.
Ao mesmo tempo, porém, é necessário ter presente as
contradições e limites das instâncias públicas de participação e controle de
políticas públicas, os múltiplos Conselhos. Com raras exceções, ainda é muito
forte a marca estatal desses Conselhos, e isso favorece sua fragilização em
favor das instâncias diretas de governo, e atrapalha os avanços que poderiam ser
conquistados pelos movimentos sociais.
IHU On-Line - Muitos movimentos sociais brasileiros se
fortaleceram no contexto da Teologia da Libertação dos anos 80. O refluxo da
Igreja progressista afetou os movimentos sociais?
Ivo Poletto -
É claro que afetou. Mas, talvez, não tanto como aparece em algumas análises. É
incrível como se tem facilidade de dizer que “a Igreja abandonou os movimentos
sociais”. Nada acontece desta forma na história real; os efeitos do refluxo se
deram de forma diversificada, e isso dependeu de múltiplos e diferentes fatores.
Não sendo possível fazer uma análise mais factual e completa
– que exigiria, além disso, muito mais pesquisa sociológica -, refiro apenas
dois exemplos de como nem tudo tem sido negatividade. A Igreja como instituição
estava em franco refluxo nos anos 90 do século passado e no início do século
XXI, também no Brasil. Assim mesmo, as pastorais sociais, com relativa
autonomia, organizaram as Semanas Sociais Brasileiras, e delas nasceram
iniciativas sociais muito significativas. Por exemplo, da 2ª Semana Social
nasceu a Campanha da Fraternidade sobre Exclusão Social, e desta nasceu o Grito
dos Excluídos; da 3ª Semana renasceu o enfrentamento político da Divida Pública,
externa e interna, e foi para organizar o primeiro plebiscito popular, e sobre a
dívida externa, que surgiu a Rede Jubileu, que, depois, firmou-se na América, na
África e Ásia como Rede Jubileu Sul; foi a Rede Jubileu que articulou e
organizou o Plebiscito sobre a ALCA e Alcântara, bem como, mais tarde, o
Plebiscito sobre a Vale do Rio Doce; da 4ª Semana Social, com sua temática de
Articulação da Forças Sociais – Mutirão por um Novo Brasil, nasceu, mas ainda
está em processo de consolidação, a Assembleia Popular, uma articulação de
forças sociais em torno da elaboração e conquista do Brasil que queremos.
Em outras palavras, é claro que, para ser fiel a Jesus de
Nazaré, a Igreja deveria ser mais profética, mais comprometida com os pobres em
suas lutas por libertação; da mesma forma, a reflexão teológica deveria ter mais
continuidade da Teologia da Libertação, que é um caminho latino-americano de
reflexão sobre a fidelidade ao seguimento de Jesus. Mas não se pode dizer que a
teologia da libertação deixou de existir e que a Igreja, especialmente a
progressista – se é que essa classificação se sustenta sociologicamente -,
tenham pura e simplesmente deixado de estar presentes e de gerar, junto com
setores excluídos, novos caminhos de libertação. Houve refluxo, mas houve também
continuidade, de modo especial através do compromisso e da teimosa fidelidade de
cristãos e cristãs das comunidades, muitas vezes, sem apoio ou até combatidos
por membros do clero.
IHU On-Line - Como o senhor vê hoje as Pastorais Sociais?
Encontram-se em crise ou ainda desempenham um papel importante junto à
sociedade?
Ivo Poletto -
Já destaquei alguns sinais de que continuam contribuindo com o amplo movimento
popular de libertação. Ainda, recentemente, elas estão dando uma nova
contribuição: colocando a temática desafiadora das mudanças climáticas,
provocadas pelo aquecimento global, como “prioridade transversal”, isto é,
fazendo que todas as ações promovidas tenham presente a dimensão ecológica,
definindo em quê e como podem contribuir para enfrentar esta nova e desafiadora
problemática. E já conseguiram que o tema da Campanha da Fraternidade de 2011
seja “A Vida no Planeta”, com o seguinte lema: “a Terra sofre em dores de
parto”.
Isso não significa que elas não vivam crises, tanto
organizativas como de missão. Seria estranho que passassem imunes pela crise
civilizacional vivida pela humanidade. Mas, pelo que conheço, há um cuidado e um
esforço permanente para possibilitar uma reflexão crítica que ajude a enfrentar
as dificuldades que surgem e para redefinir, com fidelidade e criatividade, sua
missão na realidade atual.
IHU On-Line - O ideário comunitário que deu origem à Comissão
Pastoral da Terra e que, por sua vez, motivou a formação de diversos movimentos
sociais no país, ainda é suficiente e se sustenta nos dias de hoje?
Ivo Poletto -
É bom ter presente que, na origem da CPT, esteve o ideário comunitário, sim, mas
também fez parte de sua origem o conflito pela terra, que atingia
particularmente os posseiros, e a ação repressiva da ditadura sobre qualquer
trabalho de educação popular, e particularmente sobre a pastoral popular que
crescia em diferentes regiões do país. Por isso, é bom ter cuidado quando se faz
alguma comparação com aquela situação e a de hoje.
Dito isso, quero introduzir um ponto que está apenas em fase
de brotação nas pastorais sociais e nos movimentos populares. É o seguinte:
muito provavelmente, uma das características das saídas para o desafio das
mudanças climáticas, originadas no aquecimento provocado pela ação humana para
manter o tipo de produção e de consumo com crescimento sem fim que foi se
tornando regra geral, será a retomada da vida comunitária, a ser organizada em
cada território. Não será a comunidade de outros tempos, é claro, mesmo se
contará com a riqueza das experiências dos povos indígenas e outras comunidades
tradicionais, que preservaram por milênios e séculos valores assentados na vida
comunitária. A consciência que levará a revalorizar a comunidade de vida será
nova. Ela deverá estar assentada sobre a necessidade de recriar as relações com
a Terra, assumindo que os humanos são parte dela e que só podem Bem Viver se ela
estiver viva e for fonte permanente de vida; e sobre a necessidade de recriar a
prática econômica e de intercâmbio de bens e serviços, reduzindo ao máximo o
consumo de tudo que provoca aquecimento pela contaminação da atmosfera. Em
outras palavras, a busca da comunidade será a via para superar a civilização do
consumismo, criando novas formas de sermos humanos.
Nessa perspectiva, pode estar no bom caminho a quase
prioridade dada por algumas CPTs regionais às comunidades tradicionais, seus
valores e seu questionamento do direito estatal, centrado na defesa da
propriedade privada e do livre mercado. A luta pela terra também não se esgota
na conquista pura e simples da redistribuição da terra; ela deverá ser caminho
para repensar o cultivo da terra, o tipo de produção e de comercialização, que
será tanto mais possível quanto mais cooperativo for o trabalho e mais
comunitária a convivência.
Com outros sentidos, respondendo a outros desafios, o ideário
comunitário continua válido e necessário. Creio até que a CPT precisará avançar
nesta consciência, de tal forma que seja fermento de novas práticas e profecia
do sentido da comunidade para a construção da nova civilização, indispensável
para que a Terra recupere seu equilíbrio e continue a acolher a humanidade nela.
IHU On-Line - Na sua avaliação, qual é o principal avanço
e o principal retrocesso deixado pelo governo Lula nesses 8 anos de mandato sob
a perspectiva do movimento social?
Ivo Poletto -
Em boa medida, já elenquei alguns elementos de resposta na primeira pergunta.
Mas vale avançar um pouco mais. O principal avanço está no fato de que ninguém
mais poderá dizer que uma ou um brasileiro simples não pode ser presidente da
República. Todos podem ser presidente; podem, então, assumir outras
responsabilidades públicas. A guerra dos grandes meios de comunicação contra
isso não será vitoriosa; pelo contrário, pode até ir minando sua credibilidade,
pois vai revelando seu caráter antipopular, antidemocrático, elitista.
O principal retrocesso é relacionado com o avanço: está no
fato de Lula e seu governo não terem possibilitado todo o amadurecimento da
consciência e da prática democrática que se tornaram possíveis com sua eleição.
São referidas muitas desculpas, muitas indicações de impossibilidade, muitas
justificações para o “realismo” da política do possível. Podem ter elementos de
realidade, mas não consigo convencer-me que não foram criadas condições para
maiores avanços na prática governamental verdadeiramente democrática. Povos
vizinhos, como a Bolívia e o Equador, são prova de que é possível, desde que
isso seja vontade do governante eleito e do seu grupo de governo; isto é, desde
que o governante “governe obedecendo” seu povo, evitando deixar-se enredar pelas
elites que construíram o Estado e ainda o controlam a serviço de seus interesses,
só deixando ao povo os restos do banquete. As condições políticas para isso eram
muito mais positivas no Brasil do que no Equador, por exemplo; contudo, lá,
Rafael Correa abriu caminhos de refundação do Estado com sua aliança com a
cidadania, enquanto aqui, a opção foi conservadora: aliar-se aos de sempre e,
com isso, terminando por governar sem ter conflitos com eles, limitando
imensamente os passos de renovação da sociedade brasileira.
IHU/Unisinos, 17/4/2010 –
www.ihu.unisinos.br