ENTREVISTA – Patrício Duprat
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Vamos criar a Universidade da Paz em Mato Grosso`
Patrício
Duprat, 60, mora entre Curitiba (PR) e o campus avançado da Unipaz Mata
Atlântica, que fica em uma comunidade rural no município Garuva (SC). É
publicitário e professor de espanhol. Argentino, mora no Brasil desde 1967.
Desde então, saiu do Brasil duas vezes, para morar no exterior, mas acabou
voltando. De forma que entende que sua missão é mesmo aqui. Pela primeira vez em
Cuiabá, onde esteve de 27 a 29 de abril, tomou um susto com o calor e com o
inconsciente coletivo da região. Representando a Universidade da Paz (Unipaz),
ele veio a Mato Grosso para fortalecer a idéia de instalação de um campus aqui.
A Unipaz já existe em 28 locais do Brasil e em sete países – Brasil, Argentina,
Equador, França e Inglaterra, Bélgica e Israel. Há ainda conversações com os
Estados Unidos, Canadá e Moçambique. Em Cuiabá, Duprat usou a Tribuna Livre da
Câmara de Vereadores e participou de uma audiência pública convocada pela
Assembléia Legislativa, na tentativa de sensibilizar a sociedade local para essa
idéia de paz, segundo ele, mais ampla e que não descarta conflitos, mas sim
pensa o mundo de forma holística e harmoniosa. Duprat foi convidado pelo
movimento Círculo da Paz. Leia a entrevista para entender melhor.
É a primeira vez que o senhor vem a Mato Grosso?
Sim, primeira vez.
E qual é a sua primeira impressão
Muito calor. Muito mesmo! (RS) Mas, para mim, a palavra Mato Grosso tem um outro sentido, além do calor. É uma palavra do outro planeta. Sou argentino, e o significado desta palavra fica muito longe de tudo para nós, designa um lugar muito cheio de coisas que a gente precisa aprender, não sei explicar... A palavras tropical e mata também têm esse simbolismo, ou seja, mexem com o inconsciente coletivo. A palavra mato não significa nada em espanhol. Aqui é um planeta a ser desvendado.
A idéia, com a sua vinda, é abrir um campus da Unipaz aqui?
Sim. O 29º campus do Brasil. Já existem também seis no exterior. Estamos conversando também com os Estados Unidos, o Canadá e Moçambique.
Onde surgiu a idéia da Unipaz?
Na França, alguém pensou em uma universidade a serviço da paz, uma pessoa de 17 anos, na segunda guerra mundial, justamente quando a França estava ocupada pela Alemanha nazista, era um enfermeiro da resistência. Ele foi convocado pelo exército para servir ao país. Mas resolveu ir para a Cruz Vermelha, porque desta forma cumpria com seu dever, mas não precisava matar ninguém. Ele entendeu que assim ficaria bem com Deus e com o diabo no dia do juízo final (rs)...Porém, quando ia dinamitar uma ponte...onde passaria nazistas...teve um lampejo...constatou tudo que se gasta na guerra, muita grana com tecnologia a serviço da guerra. Pensou então que era só mudar a sintonia desses investimentos, dando um giro de 180 graus. O nome dele era Pierre Weil. Já faleceu. Depois do lampejo e com o fim da guerra, resolveu ganhar a vida como psicólogo, dentro da visão do mundo capitalista. Foi trabalhar em uma multinacional, um banco francês aqui no Brasil, em Belo Horizonte (MG). Tinha uma boa formação acadêmica, era boa pinta, teve sucesso pessoal e profissional, reconhecimento, dinheiro, todas as benesses que o sistema capitalista pode oferecer.
Aí ele teve outro lampejo?(rs)
Não. Aí ai ele começou a se ferrar (rs). Começou com um processo de angústia muito grande e se descobriu com câncer. Atribui esse câncer a esse modelo de vida, fez um retiro na França para colocar cabeça em ordem, um retiro que ele chamou de retiro dos 3 anos, 3 meses, 3 semanas, 3 dias, num mosteiro tibetano. Reformulou a vida e pôs em prática aquele lampejo que teve durante a guerra.
É a historia da missão. A gente às vezes foge ou sabe enxergar qual é a nossa missão, não é?
O tamanho da fuga é o tamanho da porrada para que possamos retornar à nossa missão. Mas a verdade é que a gente na maioria das vezes não tem a menor idéia de qual seja nossa missão. Fugir significa ir para longe de algo, mas normalmente a gente é muito desconectado mentalmente e não está fugindo, porque não se pode fugir do que se desconhece.
E o que Weil faz para resgatar sua missão?
Fala com duas pessoas, uma responsável por uma clínica de tratamento integral. Porque acredita que a visão fragmentada de mundo causou seu adoecimento. E fala também com uma mulher, diretora de uma escola de ensino de abordagem holística. Os três se vêem muito cansados e pensam: ―Não estamos indo a lugar nenhum‖. Então decidem fazer uma escola holística internacional. Portanto, a idéia da Unipaz nasceu conceitualmente na França, mas eles sabiam que lá não ia rolar, porque a França é muito conservadora. O lugar escolhido foi então o Brasil.
A primeira foi Unipaz foi implantada aqui então?
Isso, em 1987, durante o primeiro congresso holístico internacional em Brasília. O governador Jose aparecido, que foi convidado como autoridade local ficou deslumbrado com a proposta e concedeu um terreno na Granja do Ipê, onde foi construída a sede da Unipaz, com o nome de . Fundação Cidade da Paz.
Os campus da Unipaz são mantidos com dinheiro público?
Não, geralmente os governos cedem o espaço. São mantidos pelas mensalidades. Todos os núcleos são auto-sustentáveis. Os cursos são pagos. Isso que nos mantém.
Como a Unipaz se espalhou?
Os que fizeram o curso inicial de 3 anos sempre, quando terminava, queriam levar o seu estado.
Quais cursos são ministrados na Unipaz?
A abordagem e transdisciplinar e holística de longa duração. É uma escola para mudança de paradigma.
Mas em resumir o que se estuda lá?
Consciência da fragmentação do corpo, fragmentação social, fragmentação ambiental. Ecologia pessoal, social, ambiental. E finalmente vocacional.
Quem dá as aulas?
Facilitadores.
Maioria estudou na Unipaz?
Maioria sim. Mas temos um índio, por exemplo, que representa as nações brasileiras na ONU e reconhecemos notório saber nele. Esses não precisam de ter estudado na Unipaz antes.
Os cursos são reconhecidos pelo MEC?
Todos os cursos são de pós-graduação. E os certificados são expedidos por instituições reconhecidas formalmente. Mas a Unipaz não é uma entidade certificadora. Tem parceria com outras instituições.
O foco da Unipaz é promover a paz?
É a mudança da paradigma. As pessoas estão mudando, exista a Unipaz ou não exista. Não podemos lidar com este planeta desta forma, é insustentável. Vou lhe dar alguns parâmetros para confirmar isso. Somos 6 bilhões de pessoas. O que chamamos de projeto de desenvolvimento é um fracasso, só atende a 1 bi.O resto é cada um por si. Apenas atendendo já essa menor parte já estamos arruinando os recursos naturais, não temos o que fazer com o lixo, colocamos o meio ambiente numa situação complicada, porque estamos perturbando o meio ambiente acima da sua capacidade de auto-equilíbrio. A paz é um conceito amplo. Paz e cultura de paz são duas
coisas diferentes. Compreender a paz só como ausência de conflito é reducionista. Tão reducionista quanto entender a saúde só como ausência de doença. Quando a gente pede: quero uma família em paz, não quer dizer que isso vai acabar com todos os conflitos. O ser humano precisa mais do que isso. Já a cultura de paz inclui a totalidade do ser humano, suas capacidades físicas, mentais, espirituais e emocionais. Se eu deixar de fora algum desses elementos o ser fica fragmentando. Então, nossa palavra de ordem é a totalidade.
Quando será fundada a Unipaz em Cuiabá?
Em 2010.
Já há conversas feitas nesse sentido?
Sim, todos os campus nasceram de uma idéia de foro íntimo de que isso aconteça. Sempre vivenciamos as coisas que nos chegam no momento certo e na hora justa. Aqui não será diferente. Temos as pessoas, as idéias e sabemos como fazer acontecer.