- Antônio Cechin -
18/3/2010
Fonte:
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=30762
Nosso bispo São Romero de América, mártir ou confessor?
A Igreja Católica classifica seus santos em duas categorías: os mártires e os
confessores. Mártir é vocábulo de origem grega. Essa palavra, a partir do livro
do apocalipse do apóstolo João, passou a designar o testemunho por excelência
prestado a Cristo pelos cristãos que aceitam a morte sanguinolenta por
fidelidade ao Salvador. Morrem antes do tempo, no seguimento de Jesús que disse
“não há maior prova de amor do que dar a vida por aqueles a quem se ama”. Por
isso, a rigor, quem canoniza o mártir é diretamente o próprio Jesús. No tempo da
Igreja dos primórdios – das catacumbas – o mártir era imediatamente proclamado
santo no dia mesmo em que tombava.
Hoje, a Igreja, para conceder a honra dos altares a um mártir, exige apenas a
comprovação do martírio e a ocorrência de um milagre – normalmente a cura
de doença incurável – graça que seja obtida após a invocação do candidato ao
título de santo, com os direitos inerentes
Ao lado dos santos mártires temos a outra categoría: a dos santos confessores.
Estes tiveram morte natural. Pode ser candidato a confessor, todo aquele que, em
vida, praticou em grau heróico, as virtudes teologais: fé, esperanca e caridade;
bem como as virtudes cardeais: prudência, justiça, temperança, etc. A parte
central do processo canônico para um candidato a santo confessor é a comprovação
da heroicidade das virtudes, além naturalmente de dois milagres: o primeiro para
ascender ao título de bem-aventurado e o segundo para que possa ser proclamado
santo, com direito a culto universal.
Depois de muito pressionar o Vaticano, os fiéis cristãos das Comunidades de Base
de El Salvador, mais ligados à teologia da libertação, conseguiram que fosse
introduzida a Causa de beatificação e canonização de
Monsenhor Romero
que eles, por conta própria já o invocavam como santo: São Romero da América.
Popularmente já o haviam canonizado no dia mesmo em que tombou enquanto
celebrava a Missa, vítima de um tiro certeiro que lhe atravessou o coração.
Surpresos ficaram quando esbarraram com a exigência da comprovação da
“heroicidade das virtudes” do seu bispo. A explicação: Roma só reconhece
como mártir quem foi assassinado por “ódio explícito à fé cristã”. O Vaticano
quer quando muito um Romero como santo confessor mas não como santo mártir. Ora,
muito contribuiu para que o papa nomeasse
Dom Romero
como Arcebispo de El Salvador, como veremos adiante, a pressão do exército e do
governo do país e quem depois o martirizou foram os mesmos “cristãos”: os
militares e governo de El Salvador. Aliás, nada de novo. O Mestre Jesus já nos
advertira em seu Evangelho: “Haverá gente que vai vos matar pensando fazer um
bem.”
Naturalmente, os cristãos de El Salvador não se conformam com a exigência.
Querem seu querido Pastor santo como mártir e muito mártir. Do contrário estão
dispostos a retirar de Roma o processo de canonização oficial para ficarem
somente com a canonização popular que já realizaram. Esse impasse, tanto quanto
estamos informados, continua até hoje. Esperemos que os devotos de São Romero
que já não são mais somente os cristãos de El Salvador mas todos os cristãos
ligados à Teologia da Libertação da América Latina, consigam seu intento mais do
que justo.
Itinerário de São Romero: de uma santidade tradicional para uma santidade
politizada
Nada melhor do que a linguagem dos fatos para avaliar o tamanho da mudança do
arcebispo
Romero,
acontecida aos 61 anos de idade. Para tanto nos valemos de uma síntese
biográfica fornecida por
María López Vigil.
Romero
nasceu a 15 de agosto de 1917, segundo de oito irmãos, na cidade de Barrios, São
Miguel, El Salvador. Em rapaz tornou-se aprendiz de carpinteiro ajudando seu pai
telegrafista e que gostava de tocar flauta e de meter-se debaixo de uma lona de
qualquer circo que aparecesse em sua aldeia. Com pouca idade o menino
Romero
já dizia querer ser sacerdote. Aos 13 anos entrou para o seminário e com 26 se
ordenou sacerdote.
Durante 23 anos (1944 a 1967) foi pároco em São Miguel. Dedicava-se as 24 horas
do dia com uma paixão inimitável, a uma pastoral de missas e longas horas de
confessionário, a rosários, novenas, catequeses, confrarias e aulas de religião
em colégios católicos. Amicíssimo dos ricos e também dos pobres, pretendia ser
ao mesmo tempo pastor de cordeiros e de lobos. Arrancava esmolas dos ricos para
dá-las aos pobres. Aliviava assim os problemas dos pobres e a consciência dos
ricos.
Foi bispo auxiliar de San Salvador durante 7 anos (1967 a 1974). Naqueles tempos
fortes e gloriosos de Medellín, o bispo
Romero
se comportou – também com inimitável paixão – como um pequeno inquisidor dos
sacerdotes mais comprometidos e progressistas que começaram a criar Comunidades
Eclesiais de Base, a empoderar o povo no sentido da organização de Movimentos
Populares e que participavam nas contraditórias lutas sociais de um país em
ebulição. Em El Salvador, como em toda a América Latina, as CEBs iniciavam uma
nova forma de evangelização e compromisso social e político.
Abancado num escritório cheio de papéis,
Romero
foi se tornando cada vez mais odioso para um amplo setor da Igreja de São
Salvador, uma das mais avançadas do continente em um dos países mais
convulsionados do continente. El Salvador é o menor país e o menos populoso, o
das “14 famílias” donas de tudo. O país em que, numa única semana, em 1932,
ocorreu o massacre de 40 mil camponeses e onde os responsáveis daquela chacina
publicavam nos jornais dos anos 70 “matamos 40 mil e tivemos 40 anos de paz. Se
tivéssemos matado 80 mil, teriam sido 80 anos”.
Atuando como inquisidor,
Romero
foi nomeado pela Santa Sé para bispo da diocese de Santiago de Maria. Nessa rica
zona cafeeira e algodoeira viveu três anos (1974 a 1977), continuando a ser
amicíssimo dos ricos latifundiários. Foi aí que começou a ficar impactado pela
realidade: a dos miseráveis diaristas cortadores de café nas fazendas dos ricos,
e a dos pobres transformados em Delegados da Palavra de Deus, pregadores da boa
notícia do evangelho a seus companheiros de miséria.
Os méritos colhidos durante tantos anos de sacerdócio exemplar e “neutro”
fizeram com que militares e oligarcas propusessem ao Vaticano nomeá-lo Arcebispo
de São Salvador no ano de 1977 quando o país vivia sua crise mais profunda que
desembocou quatro anos depois numa prolongada guerra civil. O despertar das
massas de pobres exigindo democracia, justiça e vida digna, e a intransigência
criminosa dos ricos negando tudo, anunciavam um abismo de dor e de sangue. O
país estava em ebulição e os ricos confiavam em
Dom Romero
como apagador do incêndio dos justos protestos dos pobres.
Quinze dias antes de receber o encargo e a carga arquiepiscopal, aconteceu uma
das fraudes eleitorais mais vergonhosas da história salvadorenha – em favor do
partido dos militares – seguida de um massacre no centro de São Salvador contra
o povo que reclamava. Em seguida aconteceu um incêndio ameaçador. Um mês depois,
paramilitares a serviço dos latifundiários assassinavam em Aguilares o jesuíta
Rutílio Grande,
o mais estimado dos sacerdotes salvadorenhos daquele tempo. Estarrecido por
aquela maré montante
Monsenhor Romero
viveu nos dias que vão de 12 a 20 de março – entre o assassinato de
Rutílio
e a missa de uma multidão que celebrou em memória do sacerdote assistida por
nada menos que 100 mil pessoas – um atormentado e singular “Caminho de Damasco”.
A partir de então mudou radicalmente, jamais voltou a ser aquele sacerdote
tímido e obcecado pela interpretação rígida da lei e da obediência cega à
instituição. Colocou toda a sua paixão a serviço do Espírito e do povo.
Nos três anos à frente do Arcebispado de São Salvador nasce, cresce e se
desenvolve a personalidade profética de
Monsenhor Romero.
Eram tempos de uma crescente organização popular. E em resposta, de uma cruel
repressão governamental contra o povo e especificamente, contra membros e
instituições da Igreja. Não há Igreja na América Latina com mais extenso e
prolongado recorde de mártires do que a salvadorenha naqueles anos.
As homilias que domingo a domingo
Monsenhor Romero
pronunciava na Catedral de São Salvador se converteram imediatamente na palavra
mais livre, mais acertada e mais convincente do país. Tanto para dentro das
fronteiras como para fora. A figura do Arcebispo se agigantava
internacionalmente e suas homilias o transformaram no porta-voz do povo
salvadorenho em luta pela justiça e pela dignidade. Aquele homem de aparência
insignificante conseguiu que os olhares do mundo e a solidariedade de milhões de
corações se voltassem como nunca antes cooptando seu pequeno país.
Suas homilias de longa duração – até duas horas ou mais – e muito densas
teologicamente, são uma catequese permanente. E são também um “jornal semanal”:
nenhum fato da vida nacional, nenhum sinal de violência ou síntoma de esperança,
nenhuma violação dos direitos humanos ficava fora de sua avaliação de pastor. A
Catedral de São Salvador se entupia todas as semanas para escutá-lo e para
aplaudi-lo. Era um fenômeno de massas. Suas mensagens alimentavam a esperança
coletiva.
Era sua palavra e era também sua presença. Incansável visitador das comunidades,
tenaz celebrante de crismas e de missas, conselheiro público e privado de
dirigentes de movimentos populares e de personalidades políticas, mediador em
greves e em muitos conflitos de todo tipo daqueles anos, Monsenhor Romero
parecia ter tempo para estar em toda a parte ao mesmo tempo.
Sua mudança e seu crescente compromisso e protagonismo foram se tornando cada
vez mais intoleráveis para o sistema. Campanhas de difamação, o assassinato de
vários de seus sacerdotes, ameaças, pressões eclesiásticas fizeram dele o homem
mais perseguido no pretório e no templo. Tentaram de tudo. Mas, uma vez colocada
a mão no arado nunca mais volveu seu olhar para trás. Desde janeiro de 1980 –
fracassada a fórmula política da junta cívico-militar que tomou o poder alguns
meses antes – ocupou o primeiro lugar nas listas dos esquadrões da morte.
Monsenhor Romero jamais cuidou de sua segurança pessoal e jogou até o último
momento com todas as cartas abertas.Tinha plena consciência de que queriam
matá-lo. E não queria morrer. “Nunca tive tanto amor à vida. Quero um pouco mais
de tempo. Eu não tenho vocação para mártir”, confidenciou a um amigo em suas
últimas semanas.
No domingo, 23 de março, reuniu-se pela última vez com seu povo na Catedral e no
término de sua homilia lançou um apaixonado e histórico apelo aos soldados e aos
guardas para que não disparassem contra seus irmãos do povo; para que
desobedecessem às ordens de matar que lhes davam os oficiais do exército cruel e
repressor.
No dia seguinte, 24 de março, quando morria a tarde e enquanto tratava de pôr o
ponto final à sua homilia de uma missa por uma mulher falecida, na capela do
hospital de cancerosos e diante de um pequeno punhado de fiéis, chegou sua hora.
Um pistoleiro a serviço de
Roberto D’Aubuisson,
fundador do partido ARENA, e que esteve no poder até três anos atrás, disparou
uma certeira bala explosiva que lhe atravessou o coração. Caiu aos pés do altar
e do lado da vida.
O povo recolheu seu cadáver e chorou sobre ele como se chora o pai e a mãe.
Foram oito dias de dor e de orfandade. No Domingo de Ramos de 1980 os
salvadorenhos se despediram dele numa cerimônia de massas, que foi interrompida
por calculados disparos e de bombas lançadas pelos regimentos de segurança
postados em pontos estratégicos da praça. Foram 40 os mortos e centenas de
feridos. A missa foi interrompida e o enterro teve que ser feito às pressas.
Rotos os diques e ultrapassados os umbrais do respeito e da compaixão com seu
assassinato – até hoje impune – ferido o pastor e dispersas as ovelhas, aquele
ano de 1980 foi trágico. Torrentes de sangue derramado injustamente embeberam
todos os rincões de El Salvador. No ano seguinte iniciou uma guerra que duraria
doze longos anos.
O sangue de
Oscar Romero,
mesclado para sempre com o do povo que amou e serviu, não deixou de ser fecundo.
No dia 1 de março de 1992, quando terminou a guerra em El Salvador, uma faixa
gigantesca colocada no mais alto da Catedral acompanhava a multidão que
celebrava o primeiro dia da paz e da liberdade. Dizia: ”Monsenhor, hoje
ressuscitaste no teu povo” Aos 30 anos de seu martírio, El Salvador e a América
Central oferecem à América Latina e ao mundo, com legítimo orgulho, a vida e a
entrega da vida de um homem exemplar que pôs todo o poder que tinha a serviço da
dignidade dos pobres e que continua inspirando mudanças, sonhos e compromissos.
O presidente atual de El Salvador,
Mauricio Funes,
afirmou no sábado, dia 13-03-2010, que dia 24 de março será feriado nacional e
que pedirá perdão em nome do seu Governo e da nação pelo execrável crime do
assassinato de D.
Oscar Romero,
arcebispo de San Salvador. Ele fará este pedido durante os atos em comemoração
do 30º aniversário do assassinato.
“Como presidente, e em nome do Governo que presido, decidi renovar meu
compromisso com essas maiorias necessitadas do nosso país num ato simbólico em
homenagem a D.
Oscar Romero
na data da comemoração do seu martírio. Com este ato novamente pediremos perdão
em nome do Estado, por este magnicídio e por todas as milhares de vítimas
inocentes do conflito salvadorenho”, declarou o presidente durante a alocução
prévia a um concerto em homenagem ao arcebispo.
A
Comissão da Verdade
criada para investigar os crimes cometidos durante o conflito concluiu que o
arcebispo foi assassinado por um esquadrão da morte de civis e militares de
ultra-direita.
Os cardeais da Guatemala,
Rodolfo Quezada Toruño,
e de Washington,
Theodore Mccarrick,
presidirão as missas em homenagem a Romero.