Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=29600
4/2/2010
O jesuíta egípcio mais destacado nos âmbitos eclesial e intelectual,
Henri Boulad,
lança um SOS para a Igreja de hoje em uma carta dirigida a
Bento XVI.
A carta foi transmitida através da
Nunciatura no Cairo.
O texto circula em meios eclesiais de todo o mundo.
Henri Boulad
é autor de
Deus e o mistério do tempo
(Loyola, 2006) e
O homem diante da liberdade
(Loyola, 1994), entre outros.
A carta está publicada no sítio
Religión Digital,
31-01-2010. A tradução é do
Cepat.
Eis a carta.
Santo Padre:
Atrevo-me a dirigir-me diretamente a Você, pois meu coração sangra ao ver o
abismo em que a nossa Igreja está se precipitando. Saberá desculpar a minha
franqueza filial, inspirada simultaneamente pela “liberdade dos filhos de Deus”
a que São Paulo nos convida e pelo amor apaixonado à Igreja.
Agradecer-lhe-ei também que saiba desculpar o tom alarmista desta carta, pois
creio que “são menos cinco” e que a situação não pode esperar mais.
Permite-me, em primeiro lugar, apresentar-me. Sou jesuíta egípcio-libanês do
rito melquita e logo farei 78 anos. Há três anos sou reitor do Colégio dos
jesuítas no Cairo, após ter desempenhado os seguintes cargos: superior dos
jesuítas em Alexandria, superior regional dos jesuítas do Egito, professor de
Teologia no Cairo, diretor da Cáritas-Egito e vice-presidente da Cáritas
Internacional para o Oriente Médio e a África do Norte.
Conheço muito bem a hierarquia católica do Egito por ter participado durante
muitos anos de suas reuniões como
Presidente dos Superiores Religiosos de Institutos
no Egito. Tenho relações muito próximas com cada um deles, alguns dos quais são
ex-alunos meus. Por outro lado, conheço pessoalmente o
Papa Chenouda III,
que via com frequência. Quanto à hierarquia católica da Europa, tive a ocasião
de me encontrar pessoalmente muitas vezes com alguns de seus membros, como o
cardeal Koening,
o
cardeal Schönborn,
o
cardeal Martini,
o
cardeal
Daneels,
o arcebispo
Kothgasser,
os bispos diocesanos
Kapellari
e
Küng,
os demais bispos austríacos e outros bispos de outros países europeus. Estes
encontros se produzem por ocasião das minhas viagens anuais para dar
conferências pela Europa: Áustria, Alemanha, Suíça, Hungria, França, Bélgica...
Nestas ocasiões me dirijo a auditórios muito diversos e à mídia (jornais,
rádios, televisões...). Faço o mesmo no Egito e no Oriente Próximo.
Visitei cerca de 50 países nos quatro continentes e publiquei cerca de 30 livros
em aproximadamente 15 línguas, sobretudo em francês, árabe, húngaro e alemão.
Dos 13 livros nesta língua, talvez Você tenha lido
Gottessöhne,
Gottestöchter
(Filhos, filhas de Deus), que o seu amigo o
Pe. Erich Fink,
da Baviera, lhe fez chegar em suas mãos.
Não digo isto para me vangloriar, mas para lhe dizer simplesmente que as minhas
intenções se fundam em um conhecimento real da Igreja universal e de sua
situação atual, em 2009.
Volto ao motivo desta carta e tentarei ser o mais breve, claro e objetivo
possível. Em primeiro lugar, algumas constatações (a lista não é exclusiva):
1. A prática religiosa está em constante declive. Um número cada vez mais
reduzido de pessoas da terceira idade, que desaparecerão logo, são as que
frequentam as igrejas da Europa e do Canadá. Não resta outro remédio senão
fechar estas igrejas ou transformá-las em museus, mesquitas, clubes ou
bibliotecas municipais, como já se está fazendo. O que me surpreende é que
muitas delas estão sendo completamente reformadas e modernizadas mediante
grandes gastos com a ideia de atrair os fiéis. Mas não será suficiente para
frear o êxodo.
2. Seminários e noviciados se esvaziam no mesmo ritmo, e as vocações caem
vertiginosamente. O futuro é sombrio e há quem se pergunte quem irá substituir
os sacerdotes. Cada vez mais paróquias europeias estão a cargo de sacerdotes da
Ásia ou da África.
3. Muitos sacerdotes abandonam o sacerdócio e os poucos que ainda o exercem –
cuja idade média ultrapassa muitas vezes a da aposentadoria – têm que se
encarregar de muitas paróquias, de modo expeditivo e administrativo. Muitos
deles, tanto na Europa como no Terceiro Mundo, vivem em concubinato à vista de
seus fiéis, que normalmente os aceitam, e de seu bispo, que não pode aceitá-lo,
mas que tem em conta a escassez de sacerdotes.
4. A linguagem da Igreja é obsoleta, anacrônica, chata, repetitiva, moralizante,
totalmente desadaptada à nossa época. Não se trata em absoluto de acomodar-se
nem de fazer demagogia, pois a mensagem do Evangelho deve ser apresentada em
toda a sua crueza e exigência. Seria preciso antes promover essa “nova
evangelização”, a que nos convidava
João Paulo II.
Mas esta, ao contrário do que muitos pensam, não consiste em absoluto em repetir
a antiga, que já não diz mais nada, mas em inovar, inventar uma nova linguagem
que expresse a fé de modo apropriado e que tenha significado para o homem de
hoje.
5. Isto não poderá ser feito senão mediante uma renovação em profundidade da
teologia e da catequese, que deveriam ser repensadas e reformuladas totalmente.
Um sacerdote e religioso alemão que encontrei recentemente me dizia que a
palavra “mística” não é mencionada uma única vez no
Novo Catecismo.
Não podia acreditar nisso. Temos de constatar que a nossa fé é muito cerebral,
abstrata, dogmática e se dirige muito pouco ao coração e ao corpo.
6. Em consequência, um grande número de cristãos se volta para as religiões da
Ásia, as seitas, a nova era, as igrejas evangélicas, o ocultismo, etc. Não é de
estranhar. Vão buscar em outros lugares o alimento que não encontram em casa,
têm a impressão de que lhes damos pedras como se fossem pão. A fé cristã, que em
outro tempo outorgava sentido à vida das pessoas, é para elas hoje um enigma,
restos de um passado que acabou.
7. No plano moral e ético, os ditames do Magistério, repetidos à saciedade,
sobre o matrimônio, a contracepção, o aborto, a eutanásia, a homossexualidade, o
matrimônio dos sacerdotes, as segundas uniões, etc., já não dizem mais nada a
ninguém e produzem apenas desleixo e indiferença. Todos estes problemas morais e
pastorais merecem algo mais que declarações categóricas. Necessitam de um
tratamento pastoral, sociológico, psicológico e humano... em uma linha mais
evangélica.
8. A Igreja católica, que foi a grande educadora da Europa durante séculos,
parece esquecer que a Europa chegou à sua maturidade. A nossa Europa adulta não
quer ser tratada como menor de idade. O estilo paternalista de uma Igreja “Mater
et Magistra” está definitivamente defasada e já não serve mais. Os cristãos
aprenderam a pensar por si mesmos e não estão dispostos a engolir qualquer
coisa.
9. Os países mais católicos de antes – a França, “primogênita da Igreja”, ou o
Canadá francês ultra-católico – deram uma guinada de 180º e caíram no ateísmo,
no anticlericalismo, no agnosticismo, na indiferença. No caso de outros países
europeus, o processo está em marcha. Pode-se constatar que quanto mais dominado
e protegido pela Igreja esteve um povo no passado, mais forte é a reação contra
ela.
10. O diálogo com as outras igrejas e religiões está em preocupante retrocesso
hoje. Os grandes progressos realizados há meio século estão sob suspeita neste
momento.
Diante desta constatação quase demolidora, a reação da igreja é dupla:
– Tende a minimizar a gravidade da situação e a consolar-se constatando certo
dinamismo em sua facção mais tradicional e nos países do Terceiro Mundo.
– Apela para a confiança no Senhor, que a sustentou durante 20 séculos e será
capaz de ajudá-la a superar esta nova crise, como o fez nas precedentes. Por
acaso, não tem promessas de vida eterna?
A isto respondo:
– Não é apoiando-se no passado nem recolhendo suas migalhas que se resolverão os
problemas de hoje e de amanhã.
– A aparente vitalidade das Igrejas do Terceiro Mundo é equívoca. Segundo
parece, estas novas Igrejas, mais cedo ou mais tarde, atravessarão as mesmas
crises que a velha cristandade europeia conheceu.
– A Modernidade é irreversível, e é por ter esquecido isso que a Igreja já se
encontra hoje em semelhante crise. O Vaticano II tentou recuperar quatro séculos
de atraso, mas tem-se a impressão de que a Igreja está fechando lentamente as
portas que se abriram então, e é tentada a voltar para
Trento
e o
Vaticano
I,
mais que voltar-se para o
Vaticano III.
Recordemos a declaração de
João Paulo II
tantas vezes repetida: “Não há alternativa para o
Vaticano II”.
– Até quando continuaremos jogando a política do avestruz e a esconder a cabeça
na areia? Até quando evitaremos olhar as coisas de frente? Até quando seguiremos
dando as costas, encrespando-nos contra toda crítica, em vez de ver ali uma
oportunidade de renovação? Até quando continuaremos postergando
ad calendas
graecas
uma reforma que se impõe e que foi abandonada durante muito tempo?
– Somente olhando decididamente para frente e não para trás a Igreja cumprirá
sua missão de ser “luz do mundo, sal da terra e fermento na massa”. Entretanto,
o que infelizmente constatamos hoje é que a Igreja está no final da fila da
nossa época, depois de ter sido a locomotiva durante séculos.
– Repito o que dizia no começo desta carta: “São menos cinco” – fünf vor zwölf!
A História não espera, sobretudo em nossa época, em que o ritmo se embala e se
acelera.
– Qualquer operação comercial que constata um déficit ou disfunção se
reconsidera imediatamente, reúne especialistas, procura recuperar-se, mobiliza
todas as suas energias para superar a crise.
– Por que a Igreja não faz algo semelhante? Por que não mobiliza todas as suas
forças vivas para um aggiornamento radical? Por quê?
– Por preguiça, desleixo, orgulho, falta de imaginação, de criativadade, omissão
culpável, na esperança de que o Senhor as resolverá e que a Igreja conheceu
outras crises no passado?
– Cristo, no Evangelho, nos alerta: “Os filhos das trevas são mais espertos que
os filhos da luz...”.
Então, o que fazer? A Igreja tem hoje uma necessidade imperiosa e urgente de uma
tripla reforma:
1. Uma
reforma teológica e catequética
para repensar a fé e reformulá-la de modo coerente para os nossos
contemporâneos.
Uma fé que já não significa nada, que não dá sentido à existência, não é mais
que um adorno, uma superestrutura inútil que cai por si mesma. É o caso atual.
2. Uma
reforma pastoral
para repensar de cabo a rabo as estruturas herdadas do passado.
3. Uma
reforma espiritual
para revitalizar a mística e repensar os sacramentos com vistas a dar-lhes uma
dimensão existencial e articulá-los com a vida.
Teria muito a dizer sobre isto. A Igreja de hoje é muito formal, muito
formalista. Tem-se a impressão de que a instituição asfixia o carisma e que o
que em última instância conta é uma estabilidade puramente exterior, uma
honestidade superficial, certa fachada. Não corremos o risco de que um dia Jesus
nos trate de “sepulcros caiados”?
Para terminar, sugiro a convocação de um
Sínodo
geral a nível da Igreja universal, do qual participarão todos os cristãos –
católicos e outros – para examinar com toda franqueza e clareza os pontos
assinalados anteriormente e os que forem propostos. Este Sínodo, que duraria
três anos, terminaria com uma
Assembleia Geral
– evitemos o termo “concílio” – que sintetizasse os resultados desta pesquisa e
tirasse daí as conclusões.
Termino, Santo Padre, pedindo-lhe perdão pela minha franqueza e audácia e
solicito a vossa paternal bênção. Permita-me também dizer-lhe que vivo estes
dias em sua companhia, graças ao seu extraordinário livro
Jesus de
Nazaré,
que é objeto da minha leitura espiritual e de meditação cotidiana.
Seu afetíssimo no Senhor,
Pe. Henri Boulad, SJ
henrioulad@yahoo.com