30 anos do martírio de Dom Romero. Um depoimento de D. Moacyr Grechi
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=30930
"Não resta dúvida sobre o caráter martirial da morte de
dom Romero.
Iniciou-se, na América Latina, a época em que os cristãos, morrendo pela fé, dão
sua vida pela justiça", escreve D.
Moacyr Grechi,
arcebispo de Porto Velho, RO, em artigo que recebemos e publicamos.
Eis o artigo.
Na semana que antecede a Semana Santa, vamos recordar os 30 anos da morte de Dom
Oscar Romero,
arcebispo de San Salvador, assassinado no dia 24 de março de 1980, com um só
disparo no coração, por militares do exército, quando celebrava a missa.
Considerado o líder mais popular do país nasceu em 1917 de uma família modesta
em Ciudad Barrios, El Salvador. Com 14 anos entrou no seminário e em 1942 foi
ordenado sacerdote. Nomeado bispo auxiliar de Sal Salvador em 1970, bispo da
diocese de Santiago de Maria (1974) e arcebispo de El Salvador, em 1977.
Com o assassinato do padre jesuíta
Rutílio Grande,
comprometido com o povo e seu amigo,
Dom Romero
se “converte”, colocando-se corajosamente do lado dos oprimidos, denunciando a
repressão e a violência estrutural. O momento mais forte da sua ação, em defesa
dos direitos humanos, são as homilias dominicais, nas quais analisa a realidade
da semana à luz do evangelho. Transmitidas pela rádio católica, são ouvidas em
todo canto do país, dando esperança ao povo e suscitando o ódio dos poderosos.
Na homilia de 23 de março, ele se dirige aos homens do exército, da Guardia
Nacional e da Polícia: “Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a
Lei de Deus, que afirma: NÃO MATARÁS! Ninguém deve obedecer a uma lei imoral ..
Em favor deste povo sofrido, cujos gritos sobem ao céu de maneira sempre mais
numerosa, suplico-lhes, peço-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: cesse a
repressão!”. Serão as últimas palavras do bispo ao país. No dia seguinte, ele é
assassinado enquanto reza a missa na capela do Hospital da Divina Providência. O
mandante do crime é reconhecido como responsável, mas nunca foi processado.
Um grupo de bispos latino-americanos, no dia 29 de março de 1980, às vésperas
dos funerais de
dom
Romero,
assinou um documento que dizia: “Três coisas admiramos e agradecemos no
episcopado de dom
Oscar Romero:
ele foi anunciador da fé e mestre da verdade; um resoluto defensor da
justiça; amigo, irmão e defensor dos pobres e oprimidos, dos camponeses, dos
operários, dos que vivem nos bairros marginalizados”. Ele é o símbolo de toda
uma Igreja e de um continente latino-americanos, verdadeiro servo sofredor de
Yahwé, que carrega o pecado, a injustiça e a morte de nosso continente. Embora,
às vezes, o pressentíamos, seu assassinato não nos surpreendeu; seu destino não
podia ser outro, pois ele foi fiel a Jesus e se inseriu de verdade na dor de
nossos povos.
Ao escrever sobre
Dom Romero,
o bispo emérito de San Cristobal de las Casas, Dom
Samuel Riz Garcia,
afirma que sua morte não foi um fato isolado e faz parte do testemunho de uma
Igreja que, tanto em Medellín, como em Puebla, optou, a partir do Evangelho,
pelos pobres e oprimidos. Por isso, agora compreendemos melhor, desde seu
martírio, a morte por fome e doença, realidades permanentes em nossos povos;
assim como os incontáveis martírios, as incontáveis cruzes que pontuam nosso
continente nestes anos: camponeses, moradores das periferias, operários,
estudantes, sacerdotes, agentes de pastoral, religiosas, bispos encarcerados,
torturados, cristãos de várias etnias assassinados por acreditarem em Jesus
Cristo e amarem os pobres. São como a morte de Jesus, fruto da injustiça dos
homens e, ao mesmo tempo, semente da ressurreição.
Em
Puebla
tive a oportunidade de encontrar-me com este arcebispo, irmão no episcopado, que
em tão pouco tempo depois teria sua vida ceifada por mãos criminosas. Ele
participou em 1979 da
Conferência Geral dos Bispos Latino-americanos em Puebla,
identificou-se plenamente com o apelo dos bispos à “conversão de toda a Igreja
para uma opção preferencial pelos pobres, no intuito de sua integral libertação”
(Puebla 1134).
Logo depois de voltar da
Conferência de Puebla,
dom Romero
reza uma missa na catedral. “O povo interrompeu várias vezes minha homilia com
carinhosos aplausos. Terminada a missa, cumprimentei os sacerdotes presentes e
saí acompanhado pelas aclamações do povo, para saudar os que tinham ficado do
lado de fora da Igreja. Foi um momento carinhoso..tive a sensação de estar numa
família” (16/02/79).
“O cristão, se não viver este compromisso de solidariedade com o pobre, não é
digno de chamar-se cristão”, ele dizia. E continuava: “Por isso, os pobres
marcaram o verdadeiro caminho da Igreja. Uma Igreja que não se une aos pobres
para denunciar, a partir deles, as injustiças que se cometem contra eles, não é
a verdadeira Igreja de Jesus Cristo” (23/9/1979).
Nisso, ele reconheceu sua missão como arcebispo: “Creio que fazer esta denúncia,
na minha condição de pastor do povo que sofre a injustiça, seja meu dever. Isto
me impõe o Evangelho, pelo qual estou disposto a enfrentar o processo e a
prisão” (14/5/1978).
Com muita clareza, na homilia de 8 de julho de 1979, afirmou: “Se nos cortarem a
rádio, se nos fecharem o jornal, se não nos deixarem falar, se matarem todos os
sacerdotes e até o arcebispo, e ficar um povo sem sacerdotes, cada um de vocês
deve converter-se em microfone de Deus, cada um de vocês deve ser um mensageiro,
um profeta”.
Duas semanas antes de sua morte, numa entrevista a um diário do México, disse:
“Fui freqüentemente ameaçado de morte. Devo dizer-lhe que, como cristão, não
creio na morte sem ressurreição: se me matarem, ressuscitarei no povo
salvadorenho. Digo isso sem nenhum ostentação, com a maior humildade. Como
pastor, sou obrigado, por mandado divino, a dar a vida por aqueles que amo, que
são todos os salvadorenhos, até por aqueles que me assassinarem. Se chegarem a
cumprir-se as ameaças, desde agora ofereço a Deus meu sangue pela redenção e
ressurreição de El Salvador. O martírio é uma graça de Deus, que não me sinto na
situação de merecer, porém, se Deus aceitar o sacrifício de minha vida, que meu
sangue seja semente de liberdade e sinal de que a esperança se transformará logo
em realidade. Minha morte, se for aceita por Deus, que seja pela libertação do
meu povo e como testemunho de esperança no futuro. Você pode escrever: se
chegarem a me matar, desde já eu perdôo e abençôo aquele que o fizer”.
Não resta dúvida sobre o caráter martirial da morte de
dom Romero.
Iniciou-se, na América Latina, a época em que os cristãos, morrendo pela fé, dão
sua vida pela justiça.
Os últimos dois anos de sua vida, ele registrava à noite em um gravador os
principais fatos do dia. Lembrava-se deles e os comentava.
“Rezo ao Espírito Santo, para que me faça caminhar nas estradas da verdade e me
mantenha sempre guiado unicamente por Nosso Senhor; jamais pelos elogios, nem
pelo temor de ofender” (13/03/80). Tais palavras, pronunciadas dez dias antes da
sua morte, resumem o seu projeto de vida.
Seu amor pela unidade da Igreja e do povo é o principal motivo do seu
sofrimento, principalmente quando é incompreendido e acusado de ser fonte de
divisão. Mas, Dom Romero inspira-se somente no Evangelho. Nele, encontra a força
e a luz de sua luta e de suas propostas. Aos jornalistas que o interrogam sobre
uma solução pacífica para a violência no país, responde com simplicidade
evangélica: “Eu digo sempre que a melhor solução pacífica é um retorno ao amor e
um verdadeiro desejo de busca de um diálogo. Isso deve basear-se em um clima de
confiança – que tem de ser demonstrado com os fatos – para que o povo possa
expressar as próprias opiniões em total liberdade e todos sejam admitidos ao
diálogo”.
Dom Romero
é morto enquanto celebra a Missa. Indefeso, porque sempre recusara as ofertas de
proteção do governo. “Quero correr os mesmos perigos que o meu povo corre”,
costumava repetir. Poucos minutos antes do crime, disse na homilia: “Neste
cálice o vinho se torna sangue, que foi o preço da salvação. Possa este
sacrifício de Cristo nos dar a coragem de oferecer nosso corpo e nosso sangue
pela justiça e pela paz do povo”.
Para ler mais: