Para lutar contra a pedofilia, a abolição do celibato dos padres''. Artigo de Hans Küng
fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=30402
"A
obrigação do
celibato constitui hoje a causa principal do déficit catastrófico no número
de padres, do abandono – carregado de consequências – da prática da comunhão e,
em muitos casos, do desmoronamento da assistência espiritual personalizada."
"Qual é a melhor formação para as gerações futuras de padres?", pergunta o
renomado teólogo católico. "A abolição da regra do celibato, raiz de todos os
males, e a abertura da ordenação às mulheres", responde. Segundo ele, "os bispos
sabem bem disso, mas é preciso que tenham a coragem de dizer isso em voz alta a
inteligível".
A opinião é do teólogo suíço-alemão
Hans Küng, presidente da Fundação Ética Mundial,
em artigo para o jornal Le Monde, 05-03-2010. A tradução é de
Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Os numerosos abusos sexuais que membros do clero católico cometeram em crianças
e adolescentes, dos Estados Unidos à Alemanha,
passando pela Irlanda, não trazem à Igreja Católica só um
enorme prejuízo em matéria de imagem. São também reveladores da crise profunda
em que ela está se debatendo.
Pela Conferência Episcopal Alemã, foi o seu presidente, o
arcebispo de Friburgo,
Robert Zollitsch, que tomou posição publicamente. O fato de ter
qualificado esses casos de abusos sexuais como "crimes odiosos" e de que,
consequentemente, na sua declaração do dia 25 de fevereiro, a
Conferência Episcopal tenha pedido perdão a todas as vítimas,
certamente é um primeiro passo em direção a um retorno à ordem. Mas ele deveria
ser seguido por outros passos. A declaração de Dom Zollitsch
comporta pelo menos três sérios erros de apreciação que é preciso denunciar.
Primeira afirmação: os abusos sexuais de padres não têm nada a
ver com o celibato. Objeção! Certamente é incontestável que esse gênero de
escândalos ocorre também nas famílias, escolas, associações e igualmente no seio
de Igreja em que a regra do celibato dos padres não existe. Mas por que o
fenômeno se difundiu tanto justamente nas Igrejas católicas dirigidas por homens
não casados? Bem entendido, esses desvios não são exclusivamente devidos ao
celibato.
Mas essa é estruturalmente a expressão mais relevante da relação distorcida que
a hierarquia católica tem com a sexualidade, a mesma que determina a sua relação
com a questão da contracepção e de muitas outras.
Porém, basta abrir o Novo Testamento: se Jesus
e Paulo preferiram, a título exemplar, não se casar para ficar
a serviço da humanidade, mas deixaram ao indivíduo uma liberdade de escolha
total nesse quesito. No Evangelho, o celibato só pode ser considerado como uma
vocação livremente consentida (Charisma) e não como uma lei
universalmente imposta.
Paulo se opôs àqueles que, já então, defendiam que "é bom que o
homem se abstenha de mulher": "Para evitar a imoralidade, cada homem tenha a sua
esposa, e cada mulher o seu marido". (1 Coríntios 7, 1 e seguintes),
respondia-lhes o apóstolo. Segundo a primeira epístola a Timóteo, "é preciso,
porém, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma única mulher (3, 2).
Pedro, assim como os outros discípulos de Cristo, esteve casado
durante todo o período do seu apostolado. Foi esse o caso, durante diversos
séculos, para os bispos e os padres de paróquia, o que, como todos sabem, se
perpetua hoje em dia nas Igrejas do Oriente, assim como entre
os uniatas que ficaram ligados à Roma e na ortodoxia em seu
conjunto, pelo menos no que se refere aos padres. É justamente o celibato
elevado a regra que contradiz o Evangelho e a tradição do catolicismo primitivo.
É, portanto, conveniente aboli-lo.
Segunda afirmação: é "totalmente errôneo" reportar esses casos
de abuso sexual a uma falha no sistema da Igreja. Objeção! O celibato ainda não
estava em vigor no primeiro milênio da era cristã. No Ocidente,
ele foi instituído no século XI, sob a influência de monges (que eram
celibatários por escolha). Ele é devido ao Papa Gregório VII, o
mesmo que obrigou o imperador do Sacro Império Romano-Germânico
a se ajoelhar diante dele em Canossa (1077), e fez isso apesar
da oposição virulenta do clero italiano e mais ainda do clero alemão.
Na Alemanha, além disso, somente três bispos ousaram promulgar
o decreto papal. Os padres que protestavam eram contados aos milhares. Em uma
petição, o clero alemão perguntou "se o Papa não conhecia a palavra do Senhor:
'Quem puder compreender, compreenda'" (Mateus 19, 12). Nessa única passagem que
se refere ao celibato, Jesus se expressa em favor do caráter voluntário
dessa reforma do modo de vida.
A regra do celibato deveria, portanto, se tornar – ao mesmo tempo em que o
absolutismo papal e o reforço do clero – em um pilar essencial do "sistema
romano". Contrariamente ao que ocorreu nas Igrejas do Oriente, o clero
ocidental, tão devoto do celibato, parece por isso completamente separado do
povo cristão: como uma classe social dominante singular, fundamentalmente acima
dos leigos, mas totalmente submissa à autoridade pontifícia romana. Ora, a
obrigação do celibato constitui hoje a causa principal do déficit catastrófico
no número de padres, do abandono – carregado de consequências – da prática da
comunhão e, em muitos casos, do desmoronamento da assistência espiritual
personalizada.
Uma evolução que é dissimulada pela fusão de paróquias, por trás do eufemismo de
"unidades de assistência espiritual" que são confiadas a párocos já totalmente
sobrecarregados. Portanto, qual é a melhor formação para as gerações futuras de
padres? A abolição da regra do celibato, raiz de todos os males, e a abertura da
ordenação às mulheres. Os bispos sabem bem disso, mas é preciso que tenham a
coragem de dizer isso em voz alta a inteligível. Eles teriam do seu lado a
grande maioria da população e também os católicos, dos quais as pesquisas
recentes mostram que se pronunciam em favor do casamento dos padres.
Terceira afirmação: os bispos já estão suficientemente cheios
de responsabilidades. O fato de que, finalmente, medidas de explicação e de
prevenção sejam adotadas é uma iniciativa louvável. Mas o episcopado não tem
talvez a responsabilidade de décadas de práticas de acobertamento dos casos de
abuso sexual, que muitas vezes tiveram como único efeito a transferência do
delinquente, visando apenas a reforçar a porta de ferro? Aqueles que ontem
abafaram os escândalos são hoje os mais qualificados para iluminar tudo? Uma
comissão independente não seria uma opção melhor?
Até hoje, quase nenhum bispo reconheceu a sua cumplicidade. No entanto, algum
deles poderá argumentar que se limita a seguir as ordens de Roma. No Vaticano,
com base no mais absoluto segredo, a discreta Congregação para a
Doutrina da Fé enfrentou todos os casos graves de desvio sexual
cometidos por membros do clero, que, por sua vez, chegaram à mesa do seu
prefeito, o cardeal Ratzinger, entre 1981 e 2005. Ainda no dia
18 de maio de 2001, este último enviava aos bispos do mundo inteiro uma carta
solene sobre as penosas faltas ("Epistula de delictis gravioribus").
Os casos de abusos sexuais foram postos sob "segredo pontifício" ("Secretum
pontificium") e classificados como ofensa que exigia uma punição
eclesiástica.
A Igreja, portanto, não deveria esperar também do Papa, em colegialidade com os
bispos, um mea culpa? E isso – à guisa de reparação – com a possibilidade de que
a regra do celibato, sobre a qual o Concílio Vaticano II não se
manifestou, seja enfim livre e abertamente reconsiderada.
Com a mesma franqueza para abordar, enfim, de peito aberto a questão dos
próprios abusos sexuais, seria preciso enfrentar a discussão da sua causa
essencial e estrutural: a regra do celibato. Eis o que os bispos deveriam propor
firmemente e sem meias palavras ao Papa Bento XVI.