‘Cuidar da saúde é mais complexo do que tratar da doença’

Por Keka Werneck, da Assessoria de Imprensa do Centro Burnier Fé e Justiça

Vanja BonnaO bairro Novo Paraíso II fica na periferia Norte de Cuiabá. Para chegar até lá, basta cortar toda a avenida do CPA, até o Comando Geral da Polícia Militar e virar à esquerda, seguir adiante e virar em uma rua sem asfalto. É para lá que a médica Vanja Bonna, 57 anos, vai todos os dias, isso há 12 anos. Ela trabalha na Unidade do Programa de Saúde da Família (PSF) do Novo Paraíso II. Vanja é uma referência para os moradores e um bom exemplo de exercício da medicina em favor do bem estar do povo. Formada pela Universidade Federal de Brasília (UnB), especialista em Saúde Comunitária, Infectologia e Saúde da Família, está agora também cursando Ciências Sociais, à noite, na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Para ela, o sistema de saúde erra ao focar na doença e não na prevenção.

 

Qual o paradigma para que a população pobre tenha saúde pública de qualidade?

O nosso sistema de saúde ainda está muito focado no tratamento da doença, assim sendo a maior parte dos recursos públicos é destinada a hospitais e pronto socorros em detrimento de ações preventivas normalmente realizadas nos serviços de atenção primária (unidades de saúde da família, centros de saúde, etc). Estamos trabalhando muito pouco com prevenção e quando digo isso não estou me referindo apenas a palestras de educação em saúde, mas no atendimento médico preventivo. Isso ocorre devido ao modelo de saúde adotado no Brasil e a formação que é dada aos alunos da área de saúde, sejam eles de medicina, enfermagem de faculdades públicas ou privadas. Eles já chegam com essa visão focada na doença, não conseguem olhar o paciente como um todo, como um ser complexo que sofre não só a ação de micro-organismos, como também do ambiente, da família dos hábitos de vida. Às vezes um idoso vem consultar por causa de uma lesão de pele, que é a queixa dele, é o que o levou à consulta, e é claro que o médico deve tentar dar uma solução, mais tem que observar outros riscos que aquele paciente sofre e que muitas vezes nem ele sabe. Por exemplo: ele pode ser diabético ou hipertenso, pode estar acima do peso ou já ter problemas na próstata que desconhece. São problemas que muitas vezes são assintomáticos mas é papel do médico pesquisar sempre, independente do motivo que o levou à consulta. O médico tem que estar sempre um passo a frente da doença ou das complicações de uma determinada doença. A isso se chama prevenção, descobrir a doença antes que ela se manifeste. Nesse sentido a formação dos alunos da área de saúde é falha porque só os ensina a tratar da doença e não a preveni-la. Na maioria das vezes os alunos de medicina e enfermagem só têm contato com a saúde pública no último ano. É uma passagem rápida, se comparada com o tempo que eles passam dentro do hospital aprendendo a cuidar da doença e não de preveni-la.

O que nos direcionou para o foco na doença e não na prevenção?

Isso vem desde o Relatório Flexner, elaborado no início do século passado pela Fundação Carnegier nos EUA, que foi muito importante para organizar o ensino da medicina, que era caótico e empírico. Ao mesmo tempo organizou o ensino médico num modelo cartesiano baseado na microbiologia. Essa nova forma de organizar o ensino médico trouxe grandes avanços tecnológicos, pois introduziu o pensamento científico na formação profissional, expulsando de vez o empirismo. Mas ao mesmo tempo alterou a relação médico-paciente uma vez que nesse modelo não havia espaço para o subjetivismo e nem para a visão multifatorial na determinação da doença. Assim sendo os fatores psicológicos, ambientais, familiares, sociais, entre outros, passaram a ser desprezados e ignorados no diagnóstico e tratamento da doença. Hoje em dia em vários países essa percepção já foi resgatada, pois já existem vários estudos mostrando que o tratamento, para ter sucesso, deve envolver todas as dimensões da doença. Ou seja, além do medicamento deve levar-se em conta as condições sociais, econômicas, as crenças e a percepção que o doente tem de sua doença e como vivencia o adoecer.

Por que as pessoas estão sempre em busca de fazer um plano de saúde e quando têm algum dinheiro fazem isso? Porque esse ataque sistemático ao SUS?

Isso vem da década de 70. A classe média não tinha dinheiro para pagar o atendimento particular, sempre muito caro, e o sistema público era ineficaz e fragmentado, aos poucos as grandes empresas foram fazendo convênios com hospitais para que seus funcionários fossem atendidos mais rápido e com mais eficácia, pois assim voltariam mais rápido ao trabalho. Aos poucos foram sendo criados os planos de saúde e as cooperativas médicas, com o intuito de atender aquela parcela da população descontente com o sistema público de saúde, mas que também não conseguia custear uma internação ou exames mais complexos.  Nessa época, não existia ainda o SUS, que foi criado no final da década de 80, durante a 8ª Conferência Nacional de Saúde e virou lei na Constituição. O SUS melhorou muito o atendimento para toda a população e é um direito universal. Uma parcela importante da população não tinha nenhum acesso a saúde, eram excluídos por não serem trabalhadores formais ou por estarem desempregados. Hoje isso não ocorre, não existe um município no Brasil que não tenha um sistema de saúde municipal, nem que seja pouco desenvolvido. A municipalização da saúde foi um dos grandes passos conquistados pelo SUS. A população tem direito a medicamento de auto custo, tratamento fora domicílio, medicamento gratuito e exames, mesmo os mais complexos. Qual é o convênio médico que oferece tudo isso? Além de atendimento domiciliar, ambulância, vacinas, entre outras coisas. Mas ainda temos muito o que melhorar, ainda existem muitos desafios, como por exemplo a fila de espera de até um ano para determinadas especialidades, e/ou exames. Isso é que ainda afasta a classe média, mais mesmo assim já existem muitas pessoas que apesar de terem convênios gostam mais do atendimento do postinho perto da sua casa.  

Por que essa demora no atendimento?

São vários fatores, tais como falta de algumas especialidades no mercado, salários defasados, falta de compromisso por parte de alguns profissionais com o sistema público de saúde, problemas de gerenciamento por parte dos gestores da saúde, falta de profissionais no interior, entre outros.

Mas essa mentalidade só vale porque os médicos não foram formados para ter visão social e saber que precisam cumprir uma função na sociedade. Se tivessem essa visão, teriam outros elementos, além da questão salarial, para decidir onde trabalhar, não é?

Realmente, com certeza isso contribui. Mas acontece que ele investiu muito tempo e dinheiro na sua formação e quer uma recompensa disso, quer repor o que investiu. Então, não vai querer trabalhar por tão pouco. Até ano passado antes da greve o piso salarial do médico era 800 reais. Um profissional, por exemplo, depois de trabalhar a vida inteira no SUS iria se aposentar com um pouco mais que isso Enquanto isso políticos e juízes ganham muito mais, não tendo a responsabilidade sobre a vida de ninguém e ainda fazem o que fazem, é só ler os jornais.

Quais as vantagens do SUS?

Principalmente o tratamento e diagnóstico de algumas doenças, como a aids, a tuberculose e a hanseníase, que só a saúde pública trata. O sistema privado tem inclusive dificuldade para diagnosticar essas doenças, além de não fornecer medicamentos. Sem contar as outras vantagens todas já citadas anteriormente.

O ataque rotineiro ao SUS atende a quem? Dizer que o SUS não funciona, sem indicar onde ele funciona, ajuda os negócios dos planos de saúde, que aqui em Cuiabá quase que se resume aos negócios da Unimed?

Outro dia um paciente chegou aqui e estava reclamando da demora no atendimento. Eu ouvi e disse: demoro dois meses para conseguir marcar com a minha ginecologista no atendimento particular. Então, a população está voltada para o imediatismo. Atender bem não necessariamente é atender na hora, naquele momento, já! As pessoas não conseguem agendar uma consulta. Tem uma doença há seis meses e de repente resolve tratar naquela hora. E é estimulada pelos próprios governantes a exigir isso. E também pela mídia. Acontece que temos que diferenciar o que é urgente, e esses casos não podem mesmo esperar, e o que pode esperar, deve ser agendado. Outro dia, uma mãe chegou aqui e disse que o filho estava doente e que eu precisava passá-lo na frente dos outros. Eu disse: Cadê o menino? Ela gritou: fulanoooooo!!! O menino estava correndo, subindo e descendo a escada, pulando, brincando. Então, não era urgente. Estava gripado. Precisava ser visto, mas não era urgente. Realmente existe uma dificuldade no entendimento do papel dos diversos níveis de atenção por parte da mídia e da população. E é claro que existem interesses financeiros envolvidos, além de políticos. Falar mal da saúde virou mais uma questão de campanha política.

Quais outros países têm saúde pública?

Cuba, Canadá, Espanha, Holanda, Inglaterra que foi um dos pioneiros nisso, entre outros. Neles o investimento maciço é em atenção primária

E funciona?

Uma inglesa chamada Bárbara  Starfield pesquisou 11 países do chamado Primeiro Mundo e comparou a saúde pública nesses países, usando alguns critérios, como a mortalidade, o número de especialistas e médicos de família, os gastos per capita com saúde, entre outros, e percebeu que onde o foco é o atendimento primário, ou seja, a prevenção, a população tem uma saúde melhor, dentro de uma percepção mais ampla, física, mental e social, como no Canadá por exemplo. Diferentemente dos EUA, onde o foco é a atenção terciária. Lá praticamente inexiste atenção primária. Investem muito recurso em tecnologia e aparelhagem, em hospitais e superespecialistas, mais só quem tem dinheiro tem acesso. Não existem Unidades de Saúde com atendimento gratuito para toda a população como no Brasil. Só atendimento especializado e hospitalar que só tem acesso quem tem dinheiro ou seguro de saúde.  Em resumo gasta muito dinheiro com pouco impacto na saúde da população em geral. E o Brasil seguiu o mesmo modelo dos EUA. Esse ainda é o modelo hegemônico. Após o SUS é que começamos a questionar esse modelo e começaram a surgir novas propostas de organizar a saúde. A Saúde da Família é uma delas.