Conjuntura
da Semana. Uma leitura das ‘Notícias do Dia’ do IHU de 01 a 09 de março de 2010
A análise
da conjuntura da semana é uma (re)leitura das ‘Notícias do Dia’ publicadas,
diariamente, no
sítio do
IHU. A
presente análise toma como referência as "Notícias" publicadas de 01 a 09 de
março de 2010. A análise é elaborada, em fina sintonia com o IHU, pelos colegas
do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores - CEPAT - com sede em Curitiba,
PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.
Sumário:
Xingu,
Madeira e Tapajós. Vida e resistência!
Barragens da
discórdia
Energia para quê e para quem?
O modelo explica a opção
Amazônia. Biocivilização ameaçada
Agrocombustíveis ganham “passaporte para o mundo”
Gigantes do etanol
Próximo desafio: criar mercado para o etanol
Questões sociais, econômicas e ambientais não calam
Conjuntura da Semana em frases
Eis a análise.
Xingu, Madeira e Tapajós. Vida e resistência!
"Não somos peixes para morar no fundo do rio, nem pássaros, nem macacos para
morar
nos galhos das árvores. Nos deixem em paz" – Índios
Munduruku.
Os
caudalosos cursos d’água de três dos mais importantes afluentes do Amazonas –
Xingu,
Madeira e
Tapajós –serão interrompidos por imponentes barragens. Florestas, rochas,
árvores, fauna e flora que desde tempos imemoriais formam ecossistemas
singulares serão sepultados para sempre. Águas barrentas criarão lagos
artificiais e com ele milhares de pessoas serão deslocadas, cidades serão
encobertas e aldeias indígenas desaparecerão.
Habituados
ao percurso milenar de suas águas, os rios certamente lutarão até o final de
suas forças para recuperar sua liberdade, porém chegará o momento em que serão
vencidos pelas barreiras artificiais e no lugar das corredeiras apenas um lago,
silencioso e estancado.
A construção
das hidrelétricas de
Belo Monte (Xingu),
Santo Antonio e
Jirau (Madeira) e São Luiz de Tapajós, Jatobá, Cachoeira dos Patos, Jamanxim
e Cachoeira do Caí (Tapajós) anunciam, entretanto, muito mais do que um simples
duelo entre as águas e as barragens. O duelo das águas simboliza, sobretudo uma
disputa de modelo econômico para a região e para o país. O debate em torno das
hidrelétricas opõe concepções e projetos de sociedade e revelam visões de mundo.
A principal
luta social que se trava hoje no país se dá na região Amazônica. A “vanguarda”
da luta se deslocou para o Norte do país – é lá que se dá o debate do “Brasil
que queremos”. O surgimento do
Movimento Xingu
Vivo Para Sempre,
Movimento Rio Madeira Vivo e
Aliança Tapajós é a manifestação visível dessa luta. Acompanhar esse debate
e essa luta é estar sintonizado com o que há de novo no movimento social
brasileiro. É de lá que vem a inquietante e pertinente indagação: Que tipo de
modelo econômico e de sociedade queremos?
Barragens da discórdia
Complexo Tapajós
“Já moramos mais de 500 anos dentro da floresta amazônica, nunca pensamos
destruir, porque nossa mata e nossa terra são nossa mãe. Portanto não destruam o
que guardamos com tanto carinho” –
Povo Munduruku.
A construção
de um
complexo de usinas na bacia do rio Tapajós, entre os Estados do Amazonas e
do Pará, vem sendo arquitetada desde a década de 1980. O projeto prevê a
construção de cinco usinas hidrelétricas – São Luiz de Tapajós, Jatobá,
Cachoeira dos Patos, Jamanxim e Cachoeira do Caí – com potência instalada de
10.680 MW (potência acumulada pouco abaixo de Belo Monte e pouco acima do
Complexo Madeira).
A maior e
primeira usina será a de São Luiz do Tapajós com um reservatório que ocupará uma
área de 722,5 km² e potência instalada de 6.133 mw. A expectativa da
Eletrobrás é que esta usina esteja pronta para licitação em junho de 2010.
Os outros empreendimentos são Jatobá, com um reservatório de 646,30 km² de área
e potência de 2.338 MW, Cachoeira do Caí, com reservatório de 420 km² e potência
de 802 MW; Jamanxim, com área de reservatório de 74,45 km² e potência de 881 MW;
e Cachoeira dos Patos, com 116,5 km² de área de reservatório e 528 MW de
potência.
“Nenhum rio,
no Brasil e no mundo, pode suportar a construção de cinco hidrelétricas, ou até
menos, em sequência. Hidrelétricas causam prejuízos imensuráveis à
biodiversidade, imagine cinco e em sequência. Neste caso se criariam cinco
grandes lagos na região da bacia do Rio Tapajós em sequência. Isto transformaria
esses rios em uma espécie de sistema lacustre”, alerta
Telma Monteiro, coordenadora de Energia e Infra-Estrutura Amazônia da
Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, em entrevista ao sítio do IHU.
A
promessa do governo é de que as hidrelétricas seguirão um conceito inovador:
o de usinas-plataformas, projeto inspirado na logística utilizada pela Petrobrás
em suas operações na Bacia de Campos. Segundo o governo, esse conceito elimina a
necessidade de construção de vilas no entorno das usinas, o que reduz o risco de
desmatamento. Os funcionários serão levados de helicóptero para o trabalho, onde
ficarão por períodos mais longos.
As
usinas-plataformas seriam montadas – argumenta o governo – sem a necessidade de
abertura de estrada ou grandes desmatamentos, com os equipamentos levados por
via fluvial ou por helicópteros. "Não tem cidade, não tem estrada, não tem
madeireira. Então você monta uma indústria, as pessoas vão e voltam de
helicóptero. É muito promissor", disse o ministro do Meio Ambiente,
Carlos Minc.
“Estão tão
embriagadas com essa orgia energética que ficaram criativos. Esse folhetim da
Eletrobrás apresenta uma chamada inovação na construção de hidrelétricas na
Amazônia. O tom é de ufanismo, tipo, ‘hidrelétricas do bem’ ou ‘desmatamento
cirúrgico’ (inspirado no Bush) ou ainda ‘reflorestamento radical’”,
critica Telma Monteiro. Segundo ela, “essa peça publicitária com
propaganda enganosa está sendo distribuída à população na região do Tapajós. O
conteúdo, além de conter frases de efeito, é subliminar, faz crer que a
construção é iminente, passa batido sobre o processo de licenciamento ambiental
e tem ilustrações que levam a falsa impressão de que não haverá impactos
ambientais e sociais graças ao novo conceito de ‘usinas plataforma’”.
Quem também
protesta é o padre
Edilberto Sena, uma das vozes de oposição ao projeto: “A
hidroelétrica de São Luiz do Tapajós, segundo a Eletronorte, será
construída, quase como a bíblia descreve a criação do mundo por Deus. Assim: sem
destruição, sem impactos negativos, até escadinha para os peixes subirem e
descerem o rio haverá. Imagine que ela diz que os trabalhadores não residirão na
área de trabalho, mas cada dia serão transportados de helicóptero e barco para a
cidade de Itaituba. Quem já viu como se faz uma barragem (aquela será para gerar
ao menos 8.000 megawattz de energia, um paredão de 36 metros) pode imaginar que
ao menos 10.000 e até 20.000 trabalhadores estarão envolvidos na obra,
então…todo dia essa tropa será levada e trazida a Itaituba…”, diz cético o padre
Edilberto Sena.
E pergunta:
“Mas para quem servirá a eletricidade de 5 grandes hidroelétricas, quando o Pará
já tem Tucuruí? A construção de da hidrelétrica de Jirau, em Rondônia começa
destruindo natureza e expulsando famílias. Será diferente a hidroelétrica de São
Luiz do Tapajós, de Jatobá e do Jamanxim? Por que enganar os povos do Tapajós?
Quem pode impedir tais desastres? Só povos esclarecidos, unidos e organizados de
Santarém, Aveiro, Itaituba e outros. Mas, estão atentos para isso? O que
acontecerá no Alto Tapajós atingirá o povo de Santarém? E por fim, eticamente
justifica sacrificar povos e comunidades inteiras em nome do progresso? Quem
viver verá!”, conclui ele.
O anúncio do
Complexo Tapajós deu origem ao
Movimento “Aliança Tapajós Vivo”, cujo objetivo “é empatar a construção de
qualquer hidroelétrica na bacia do Tapajós, sem diálogo real com as comunidades
e os movimentos sociais”.
Em
entrevista ao IHU,
Jesielita Gomes, coordenadora do Movimento Tapajós Vivo e do
Movimento de Mulheres da região, afirmou: “Nós dependemos da Amazônia para
sobreviver, como é que vamos estragar tudo? Quantos anos nós estamos preservando
para de repente o governo vir e em dias acabar com todo esse trabalho”.
Na
entrevista Jesielita Gomes conta que só soube do projeto das
hidrelétricas no rio Tapajós porque participou de um evento na cidade de
Altamira e lá conheceu o jornalista, e historiador, Glenn Switkes: “O
Glenn nos perguntou se sabíamos da construção das hidrelétricas na bacia do
Tapajós. Então, falei que não sabíamos de nada”.
O
jornalista, coordenador da ONG International Rivers, em
entrevista ao IHU ainda no ano passado afirmava: “A visão de
conquistar os rios da Amazônia com construção de grandes barragens é antiquada,
obsoleta, que vem dos anos 1980, ou seja, é uma visão militar de ocupar a
Amazônia e transformá-la numa estratégia econômica e política por parte de gente
mal intencionada e ignorante, mas principalmente de grandes empreiteiras que
querem construir essas barragens de qualquer forma (...) Os rios da Amazônia são
os corredores da biodiversidade da floresta. Mexendo com isso, o impacto será
muito sério na possibilidade de sobrevivência da floresta e dos povos da
floresta”.
Quem se opõe
de forma contundente ao projeto são os
povos indígenas Munduruku. Perguntam eles sobre a hidrelétrica: “Para quem
vai servir? Será que o governo quer acabar todas as populações da bacia do Rio
Tapajós? Se apenas a barragem de São Luis for construída vai inundar mais de 730
Km². E daí? Onde vamos morar? No fundo do rio ou em cima da árvore?
Aximãyu’gu oceju tibibe ocedop am. Nem wasuyu, taweyu’gu dak taypa jeje ocedop
am (não somos peixes para morar no fundo do rio, nem pássaros, nem macacos
para morar nos galhos das árvores. Nos deixem em paz. Não façam essas coisas
ruins. Essas barragens vão trazer destruição e morte, desrespeito e crime
ambiental, por isso não aceitamos a construção das barragens. Se o governo não
desistir do seu plano de barragens, já estamos unidos e preparados com mais de
1.000 (mil) guerreiros, incluindo as várias etnias e não índios”, afirmam eles.
Em
carta aberta às autoridades e à população brasileira, os povos da bacia do
Tapajós, denunciaram: “Temos clareza de que os impactos ambientais, econômicos,
sociais e culturais, na bacia do Rio Tapajós comprometem a vida humana, animal e
vegetal, sem respeitar fronteiras geopolíticas, nem acordos governamentais.
Assim, denunciamos a conivência passiva e ativa do governo e seus órgãos, diante
dos crimes cometidos pelas empresas construtoras de barragens (Andrade
Gutierrez, Odebrecht, Camargo Corrêa, etc.) e empresas eletro-intensivas (Albras,
Alunorte, VALE, Pará Pigmento, Alcoa, Itacimpasa, Imerys Rio Capim Caulim,
etc.) que consomem muita energia, geram pouco emprego, saqueiam nossos recursos
naturais, contaminam nossos rios, terra, floresta, ar e destroem e violam os
direitos das comunidades locais e comunidades indígenas”.
Complexo Madeira
“O rio Madeira e suas margens deixarão de atender ribeirinhos, indígenas e a
população de Porto Velho com água, peixes, sedimentos e vida para se tornar um
rio-mercadoria” –
Movimento Madeira Vivo.
Somada à
construção do complexo do Tapajós e Belo Monte, projeta-se a construção de duas
hidrelétricas – Santo Antônio (já em andamento) e Jirau – no Rio Madeira, o
maior afluente do Amazonas. As obras constam do PAC e não se resumem
apenas às hidrelétricas, mas constituem-se em um complexo – que vai contar com
hidrelétricas, eclusas, hidrovias e uma linha de transmissão que irá de Porto
Velho até São Paulo.
A estimativa
é de que o projeto vai inundar uma área de mais de 500 quilômetros quadrados e
deslocar mais de 10 mil pessoas que vivem na região. Ao se colocar contra a
construção do complexo, o movimento social questiona a quem o projeto irá
beneficiar. Segundo
Gilberto Cervisnki do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB),
“construir as usinas no Madeira representa a abertura para construção de dezenas
de outras hidrelétricas dentro da Amazônia, sem sequer discutir uma questão que
entendemos ser fundamental: energia para quê? E para quem?". Segundo ele,
o discurso do risco de apagão é utilizado para impor os aumentos nas tarifas de
energia e o financiamento desses empreendimentos, mas que no final acabam
beneficiando poucos.
Na opinião
de
Marco Antonio Trierveile, também do MAB, em entrevista ao
IHU, “os grandes grupos econômicos estão interessados em aumentar sua
exploração na Amazônia e em toda América Latina (recursos naturais, energia,
minérios, madeira, terra, biodiversidade – principalmente para indústria
financeira). Para que essas indústrias possam se instalar no País, elas precisam
criar uma rede de infra-estrutura básica (energia, portos, hidrovias, redes de
transmissão de energia, estradas, ferrovias), o que possibilitará a elas
transportar mercadorias para fora do país”. É nesse contexto que ele situa o
Complexo Madeira. Os grandes beneficiados pela construção das usinas
hidrelétrica do Rio Madeira serão grupos de grande porte, como Votorantim,
Vale do Rio Doce, CSN, Alcoa e Gerdau.
A maioria da
população de Porto Velho (Rondônia) apóia o projeto. "No afã que as usinas vão
gerar emprego, ganharam a opinião pública. Mas a maioria das pessoas desconhece
os problemas que podem vir com as hidrelétricas", avalia
Iremar Antonio Ferreira, do Madeira Vivo.
Os problemas
que virão são destacados por
Gustavo Pimentel, da organização Amigos da Terra:
“aumento do desmatamento, da grilagem, perda de biodiversidade, explosão
demográfica e favelização em Porto Velho, aumento da malária e outras doenças,
contaminação de peixes e da população por mercúrio, entre outros problemas”. A
barragem de Santo Antonio fica distante apenas 7 Km de Porto Velho. A barragem
deverá consumir 170 mil toneladas de estrutura metálica, além de 3,7 milhões de
metros cúbicos de concreto, o suficiente para construir 60 estádios iguais ao
Maracanã. Enquanto o concreto deverá ser produzido na região, a estrutura
metálica será transportada pelas hidrovias amazônicas, assim como as 44
turbinas, cada uma com 33 mil toneladas.
Outro
desafio crucial deverá ser a construção da linha de transmissão
PortoVelho-Araraquara. Pelos planos do governo, sua concessão, orçada em 1,8
bilhão de reais. Aqui, o risco tem a ver com a eficiência de um sistema de
logística a ser distribuído ao longo de 2 450 quilômetros, cruzando os estados
de Rondônia, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo. A fim de diminuir o
desmatamento, as torres de transmissão, que vão atravessar áreas de proteção
ambiental, terão pelo menos 40 metros de altura.
Segundo o
movimento Rio Madeira
Vivo, “o rio Madeira e suas margens deixarão de atender ribeirinhos,
indígenas e a população de Porto Velho com água, peixes, sedimentos e vida para
se tornar um rio-mercadoria. Um rio morto, estéril, com águas podres,
contaminado por mercúrio, multiplicador da malária. Um rio a serviço das
indústrias eletrointensivas e do agronegócio, imprestável para o povo, para a
pesca artesanal, para o lazer e para as culturas de várzea”. O movimento alerta
ainda que “com as usinas, o patrimônio histórico da Estrada de Ferro
Madeira–Mamoré e da Igrejinha de Santo Antonio será descaracterizado para
sempre. Verdadeiros monumentos ambientais como as cachoeiras de Santo Antonio e
de Teotônio desaparecerão”.
Belo Monte
“Para construir a barragem terão que passar por cima de nós” –
Luís Xipaia, líder kaiapó.
A maior obra
de infraestrutura já realizada no país desde Itaipu e o terceiro maior
empreendimento hidrelétrico do planeta, atrás apenas do projeto chinês de Três
Gargantas e da própria Itaipu caracteriza a
usina hidrelétrica de Belo Monte. O projeto impactará 11 municípios, nove
territórios indígenas, desalojará milhares de pessoas e desmatará grandes áreas
de floresta e secará parte do rio Xingu.
O governo
afirma que a hidrelétrica é absolutamente indispensável para suprir a crescente
demanda por energia; já na análise do movimento social, de ambientalistas e
especialistas, Belo Monte configura-se como um projeto economicamente
perdulário, socialmente desastroso e ambientalmente devastador. Nas palavras de
dom
Erwin Krautler, uma das principais vozes de resistência ao projeto,
Belo Monte é “projeto faraônico e gerador de morte''. Os movimentos acusam ainda
que o empreendimento atende especialmente aos interesses do grande capital.
Belo Monte
foi projetada pela primeira vez pelos militares em 1975 no âmbito dos grandes
projetos de ocupação da Amazônia. Em 1989, o projeto foi retomado com o nome de
usina Kararaô, mas foi abortado pela resistência dos povos indígenas. Há um
episódio que marcou simbolicamente a suspensão do projeto. Durante um encontro
realizado em Altamira entre os povos índígenas com a Eletronorte para
discutir a barragem, a indígena kayapó Tuíra encostou a lâmina de um
facão no rosto do então presidente da Eletronorte, José Antonio Muniz Lopes
– hoje presidente da Eletrobrás –, num gesto de advertência contra o
então projeto do governo de inundar 1,7 milhão de hectares com a construção de
cinco barragens no Xingu. A foto correu mundo e a pressão internacional fez com
que o Banco Mundial desistisse do empréstimo.
Tudo é
superlativo na obra. Belo Monte é um gigante na selva. Ninguém sabe ao certo o
custo da obra. Orçada em R$ 20 bilhões pelo governo e R$ 30 bilhões por
empresários, a previsão é que a construção da usina mobilize 100 mil pessoas,
incluída os 18,7 mil trabalhadores empregados nas obras, 23 mil nas atividades
que orbitam o empreendimento e um contingente de 55 mil pessoas em busca do
“novo Eldorado”. Para os críticos, a conta está subestimada e avaliam que a obra
mobilizará o dobro, 200 mil pessoas. A obra prevê a construção de dois canais de
até 35 km de comprimento e 500 m de largura – o volume de terra a ser retirado e
o de concreto para forrá-los supera o do canal do Panamá.
A fauna, a
flora e parte da natureza intocável e de rara beleza serão destruídas. Haverá
comprometimento da navegabilidade, da pesca e da agricultura. Animais serão
extintos e os modos de vida locais se perderão em definitivo; grandes áreas de
bosques serão inundadas. Cem quilômetros do rio Xingu, um afluente do Amazonas –
com largas cachoeiras e fortes corredeiras, arquipélagos, florestas, canais
naturais rochosos – se tornarão secos ou serão reduzidos a um filete de água.
Belo Monte é
realmente necessária? O governo diz que sim, o movimento social contesta. Na
avaliação dos movimentos contrários a obra, a mesma gerará pouca energia e
produzirá muitos danos. Segundo especialistas a grande oscilação entre cheias e
secas do rio Xingu vai transformar a hidrelétrica de Belo Monte numa imensa
usina "vaga-lume". Análises ainda dão conta que a hidrelétrica foi concebida
para atender os grandes consumidores de energia.
Energia para quê e para quem?
A construção
das hidrelétricas no Xingu, Madeira e Tapajós vem sendo apresentadas como
imprescindíveis. O governo afirma que se trata de obras absolutamente
necessárias e indispensáveis para suprir a crescente demanda de energia no país.
O passivo ambiental e social é o preço a ser pago para dar continuidade ao
crescimento econômico. “Sem as hidrelétricas o Brasil para”, tem sido o discurso
do Estado. Sucumbir ao argumento do governo, entretanto, é abdicar do debate.
Uma correta
leitura do debate em torno da construção das hidrelétricas precisa ser inserido
do modelo econômico que se deseja para o país e, sobretudo no contexto das
crises energética e ecológica.
Relacionado
ao debate do modelo econômico, uma primeira e importante pergunta a ser feita é:
Energia para quê e para quem? A quem se destinarão os milhões de quilowatts
de energia a ser produzida? O argumento do governo é de que as hidrelétricas em
operação garantirão estabilidade maior ao sistema nacional integrado de produção
de energia – o Operador Nacional do Sistema (ONS) que compensa o déficit
em energia de uma região com a oferta de outra. Como Itaipu há anos vem sofrendo
sobrecarga, outras usinas hidrelétricas auxiliarão na oferta e equilíbrio geral
do sistema.
A motivação
não se resume porém ao argumento do afastamento definitivo do “apagão”. Há
outras motivações nem sempre explícitas. E entre elas, o fato de que as
hidrelétricas servirão sobretudo para subsidiar energia para grandes empresas.
Grandes consumidores de energia como Alcoa, Votorantim, Vale, Gerdau e
CSN já
manifestaram interesse em participar do leilão de Belo Monte. Essas empresas
conhecidas como autoprodutores além de participarem do consórcio de construção
da usina terão direito a uma parcela da energia gerada. Além do acesso a
eletricidade mais barata, os autoprodutores – a diretriz do governo prevê uma
participação entre 10% a 30% de autoprodutores nos consórcios – ficam isentos
dos riscos do projeto, como os comerciais.
Ao menos, a
Alcoa – a maior produtora mundial de alumínio – e a
Vale – gigante na exportação de minério – já manifestaram publicamente o
interesse em participara do leilão de Belo Monte. Essas empresas estão
procurando se associar às grandes empreiteiras para disputar o leilão da usina
do Xingu. Entre as
grandes empreiteiras estão as de sempre: Camargo Corrêa, Odebrecht e
Andrade Gutierrez.
Telma
Monteiro, coordenadora de Energia e Infra-Estrutura Amazônia da Associação
de Defesa Etnoambiental Kanindé, em
entrevista ao IHU dá uma clara indicação a quem interessa o destino
da energia. Segundo ela, “temos as grandes usinas eletrointensivas, que são
aquelas cujo produto final requer um insumo maior de energia. Temos o
beneficiamento do alumínio, primeiro com a extração da bauxita, que beneficia o
alumínio. Antigamente, o Brasil exportava toneladas de material mineirado. Hoje,
o país exporta quilos de alumínio. O que essas grandes empresas eletrointensivas
como a Vale precisam? Precisam extrair a bauxita e beneficiar o alumínio, e isso
acontece usando a energia hidrelétrica. O custo menor para elas é manter essas
indústrias que beneficiam o minério perto de usinas hidrelétricas. Onde estão
essas explorações? Estão justamente na Amazônia, a região com a maior riqueza
mineral do planeta. E o que essas grandes empresas eletro-intensivas querem?
Querem explorar toda essa riqueza. Veja que algumas já têm uma planta pronta
para uma indústria em Altamira para beneficiar a indústria de alumínio”.
Da mesma
análise compartilha
Marco Antonio Trierveiler, coordenador do Movimento dos Atingidos por
Barragens (MAB), para quem “é importante dizer que 32 % de toda energia
elétrica produzida no Brasil é utilizada pela chamada indústria pesada, ou ainda
conhecida com indústria eletrointensiva (celulose, alumínio, ferro-gusa,
minérios, petroquímica, cimento). Essas empresas, além de gastarem muita
energia, geram poucos empregos, são muito poluidoras e produzem basicamente para
exportação”.
Na
realidade, os maiores consumidores de energia serão grandes grupos, e entre
eles, sobretudo, empresas exportadoras de commodities (matéria prima). A
energia gerada na região será consumida particularmente, no caso de Belo Monte,
pela Vale e a Alcoa, não sendo previsto nada para atender as
comunidades locais que não possuem energia elétrica, por outro lado, o sudeste
será o maior
beneficiado pela energia gerada no Norte.
A
argumentação de que a premência das usinas no Xingu, Madeira e Tapajós é para
afastar em definitivo o risco de apagão é uma parte da verdade. Aliás, nessa
perspectiva, o modelo energético brasileiro tributário de gigantescas usinas
hidrelétricas – na mesma linha têm-se as usinas nucleares – distantes dos
grandes centros demandadores de energia colocaram em ação um sistema integrado e
centralizado. Se por um lado a integração é o ponto forte, a centralização é o
ponto frágil, como se viu no
último blecaute.
Será que é
uma atitude inteligente centralizar a produção de energia em mega-hidrelétricas?
Insistir em
fontes de energia altamente centralizadoras e que demandam enormes estruturas
que causam poluição e devastação não se justificam mais porque são tributárias
de uma sociedade que está ficando para trás. O pesquisador
Jeremy Rifkin chama a atenção para o fato que estamos diante de uma
nova Revolução. Segundo ele, “as novas tecnologias da comunicação convergem com
as energias renováveis. É o que eu chamo de energia distribuída ou difusa.
Porque as fontes renováveis – sol, vento, energia biotérmica, biomassa de
rejeitos – encontram-se em nosso meio, igualmente repartidas em cada metro
quadrado da superfície terrestre. Diferentemente das energias fósseis, como o
petróleo e o carvão, cuja concentração territorial foi fonte de enormes
problemas geopolíticos”.
Na prática,
o que significa abraçar o modelo da energia difusa? Rifkin responde:
“Significa converter toda casa individual, toda mansão, em uma pequena central
energética que usa o sol, o vento, os rejeitos, estocando-os e
redistribuindo-os. Significa que a energia não consumida para as próprias
necessidades será repartida segundo uma lógica de cooperação e de solidariedade.
Não é socialismo, mas sim uma economia de mercado híbrida, exatamente como a
Internet, com fenômenos como o software "open source", prefigurou uma superação
do capitalismo puro, hibridizando-o com elementos de socialismo. Tudo isso já
está começando a ocorrer e está mais próximo de vocês do que vocês acreditam”.
Rifkin
nos dá uma
ideia do que está por vir: “Estamos no início da terceira revolução
industrial: no período dos próximos trinta anos tudo mudará como mudou quando o
vapor foi substituído pela eletricidade. Desta vez, quem vencerá será a
intergrid, a Internet da energia: uma rede elétrica interativa e
descentralizada, que transformará milhões de consumidores em pequenos produtores
de energia criando um sistema mais confiável, mais seguro e mais democrático. Os
edifícios serão envoltos em fotovoltaicos e, em vez de sugar a energia,
produzirão. Os motores dos automóveis poderão, por sua vez, transformarem-se em
mini-centrais, os tetos dos pavilhões beberão a energia solar com seus painéis e
a restituirão. Uma parte da eletricidade será consumida diretamente no local de
produção, reduzindo a dispersão. É uma revolução radical que mudará toda a
arquitetura do nosso sistema produtivo. E quem compreender isso primeiro guiará
o novo salto industrial”.
Segundo ele,
“o século que apenas se iniciou é o século da terceira revolução industrial. O
século da Internet e a energia soft que é produzida a partir de baixo, nos
bairros, nas casas, se articulando em rede, com entrada e saída, os fluxos de
informação e da energia. É um modelo descentrado, democrático, mais confiável
tanto do ponto de vista dos custos quanto daquele da independência da produção”.
O modelo explica a opção
A obsessão
pela construção das usinas hidrelétricas que vem atropelando a legislação
ambiental, é melhor compreendida quando contextualizada no âmbito da crise
energética. A voracidade por energia está associada aos padrões sempre
crescentes de produção e consumo. Não há país no mundo hoje que não esteja às
voltas com a questão energética, que tem hoje o potencial de estrangular
qualquer economia. O mundo necessita sempre mais de petróleo, carvão, gás,
eletricidade, energia nuclear e agora biocombustíveis – como veremos à frente.
No caso
brasileiro, o
modelo econômico em curso, o neo-desenvolvimentismo – política econômica na
qual o Estado exerce um forte papel indutor na perspectiva do crescimento
econômico –, explica a “necessidade” das mega-hidrelétricas. O governo
brasileiro está absolutamente convencido de que o seu papel é induzir o
crescimento da economia, função que exerce através do binômio “Estado
financiador” e o “Estado investidor”. O “Estado financiador”, utilizando o
BNDES e os fundos de pensão, exerce o papel de indutor do crescimento
econômico fortalecendo grupos privados em setores estratégicos. Por outro, o
“Estado investidor” financia mega-obras de infra-estrutura. No caso das usinas
hidrelétricas vemos em ação o “Estado investidor” emprestando sua musculatura
financeira para viabilizar as obras.
Essas
grandes usinas são, portanto, compreensíveis a partir da concepção
neo-desenvolvimentista que se aplica no país. O governo está absolutamente
convencido de que esse é o melhor caminho para o país. Aliás, está convencido de
que não há outro caminho. Pensado a partir da lógica produtivista e sob a
perspectiva da lógica imediata e pragmática, as usinas no Xingu, Madeira e
Tapajós encontram argumentos justificáveis e favoráveis; pensada, entretanto, a
partir da crise ecológica, essas mega-obras precisam ser complexificadas.
Amazônia. Biocivilização ameaçada
É
inquestionável que o planeta Terra dá sinais cada vez mais reiterados e
evidentes de esgotamento. Os sistemas físicos e biológicos alteram-se
rapidamente como nunca antes aconteceu na história da civilização humana. Desde
o relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) de
fevereiro de 2007, já não há mais contestação de que o responsável pela evolução
acelerada da tragédia ambiental é a ação antropogênica sobre a Terra – o
aquecimento global se deve à intervenção humana sobre o planeta. É o “modo de
produzir” e o “modo de consumir” da sociedade mundial que está levando o planeta
a exaustão.
É o tipo de
desenvolvimento econômico implantado, especialmente, ao longo dos últimos dois
séculos, baseado no paradigma do crescimento econômico ilimitado, na idéia de
progresso infinito e na concepção de que os recursos naturais seriam
inesgotáveis e de que a nossa intervenção sobre a natureza se daria de maneira
neutra que se encontra a razão do impasse que vivemos.
Há algum
tempo vimos insistindo que a crise ecológica exige uma abordagem a partir do
paradigma da complexidade, como propõe
Edgar Morin. Trata-se de perceber que “não só a parte está no todo,
mas também que o todo está na parte”. Tudo está interligado, entrelaçado, e há
uma interdependência entre as crises. Nossos problemas não podem mais ser
concebidos como separados uns dos outros. Nesse sentido, a crise ecológica
devolve à humanidade a consciência de que os destinos humanos e de Gaia são
relacionados e interdependentes, estão entrelaçados e nesta perspectiva o
princípio da “ecologia
da ação” proposto por Edgar Morin é um princípio e um critério
sugestivo para a análise em questão.
Segundo
Morin, “desde o momento em que um indivíduo empreende uma ação, qualquer que
seja ela, esta começa a escapar de suas intenções. Ela entra num universo de
interações e finalmente o meio ambiente apossa-se dela num sentido que pode se
tornar contrário ao da intenção inicial. Com freqüência a ação retorna em
bumerangue sobre nossa cabeça”. O que Morin quer dizer é que toda ação
implica em efeitos nem sempre controláveis e que mesmo uma ação realizada com o
melhor dos propósitos, pode fugir ao controle e se voltar contra o objetivo
inicial.
É nesse
contexto, e tendo presente o papel do movimento social e das pastorais sociais
que são identificados como independentes e comprometidos com os interesses
populares, e exercem a análise crítica dos fatos, é que se pode afirmar que o
Brasil parece não perceber que frente à crise epocal, manifesta sobretudo na
crise ecológica, joga um papel estratégico.
Subordinar a
biodiversidade da região amazônica ao produtivismo do sudeste é uma decisão
inteligente e consoante aos novos desafios planetários? E ainda mais quando se
sabe que a floresta e os povos nativos serão sacrificados para dar sustentação a
um modelo de primarização – exportação de commodities?
Nesse
sentido, a reflexão de
Ignacy Sachs a partir do conceito de biocapacidade é sugestiva.
Segundo ele, “a região Amazônica e sua floresta, talvez o laboratório individual
mais importante da biocivilização moderna no mundo, representa uma grande
responsabilidade e uma extraordinária chance para o Brasil”.
Sachs
chama a atenção que a biocapacidade – definida como a capacidade regenerativa
total da biosfera disponível para atender às necessidades humanas – do Brasil é
alentadora. O economista destaca que “no momento, a pegada ecológica de cada
membro da tripulação da espaçonave terra é 2.7 hectares globais, enquanto a
biocapacidade à disposição é de apenas 2.1 hectares globais (...) e os últimos
dados sobre o Brasil são: pegada ecológica total, 2.4 gha per capita;
biocapacidade total, 7.3 gha; reserva ecológica, 4.9 gha”.
Uma das
grandes fontes da biocapacidade brasileira encontra-se exatamente na região
amazônica. Fato já indicado por outros autores. Infelizmente, o Brasil parece
não enxergar essa potencialidade e tributário da lógica desenvolvimentista da
sociedade industrial pode estar matando a sua “galinha de ovos de ouro”.
Agrocombustíveis
ganham “passaporte para o mundo”
Outra frente
de produção energética vai ganhando fôlego. O ano de 2010 começou bem – na
verdade otimamente bem – para o setor dos agrocombustíveis brasileiros, apesar
de amargar um começo de ano com quebra de safra da cana-de-açúcar – quatro
bilhões de litros de etanol a menos.
A notícia
veio no começo de fevereiro e dos Estados Unidos. Lá, a Agência Americana de
Proteção Ambiental (EPA) classificou o etanol feito de cana-de-açúcar como
um combustível avançado, que reduz a emissão de dióxido de carbono (CO2) em 61%
comparado à gasolina.
A aprovação
foi recebida com foguetes – e enormes expectativas de expansão e lucros – pelo
setor no Brasil, pois a decisão abre um fantástico mercado para o biocombustível
brasileiro nos Estados Unidos. Mercado maior que o brasileiro pode suprir no
momento.
A nova
legislação americana estabelece um consumo mínimo de biocombustíveis
superior a 45 bilhões de litros este ano. A previsão é elevar esse volume para
até 136 bilhões de litros em 2022. Uma fatia de 80 bilhões de litros será
reservada para os biocombustíveis avançados, que são celulósico, diesel de
biomassa e outros. O etanol brasileiro tem agora uma fatia garantida de 15
bilhões de litros – um volume três vezes maior que todo o etanol exportado pelo
Brasil em 2008. Ou seja, esse fato representa uma conquista importante para
assegurar fatia do mercado de combustíveis nos Estados Unidos, grande demandante
mundial de energia.
A medida
representa, nas palavras de
Marcos Jank, presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar
(a Unica), a “consolidação do etanol como commodity global. Ganhamos o
passaporte para isso. Daqui para frente o nosso futuro não é só substituir
petróleo ou abastecer os carros flex brasileiros. Temos a terceira oportunidade
que é o reconhecimento do etanol como elemento fundamental de mitigação de gases
de efeito estufa no mundo”.
Não é
segredo para ninguém que essa conquista é fruto de um poderoso, bem articulado e
eficiente lobby que envolve a indústria, cientistas, professores e especialistas
de lobby e o governo brasileiro. A indústria montou uma estrutura, nos
Estados Unidos e no Brasil, dedicada inteiramente ao combate do protecionismo
norte-americano. “Essas pessoas estão fazendo um trabalho cotidiano. Entre
Estados Unidos e Europa, são seis pessoas trabalhando full time nesses
assuntos”, disse Marcos Jank. "Boa parte da decisão dos EUA foi resultado
do estudo técnico que enviamos à EPA", avalia, por sua vez, o diretor
executivo do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais
(Icone),
André Nassar.
O governo
participou mediante a assinatura do
Memorando de Entendimento sobre Biocombustíveis, assinado em março de
2007, por ocasião da visita de ex-presidente George W. Bush ao Brasil. Na
época, o memorando foi duramente criticado como
ineficiente e inócuo, pois o que se esperava era a eliminação ou a redução
da tarifa de importação do etanol nos Estados Unidos, coisa que não aconteceu.
Na época, a
opinião de
Lula sobre o memorando beirou o ufanismo – mas se revelou acertada no
médio prazo: “Estou convencido de que nós demos um passo extraordinário para que
o álcool se transforme numa commodity, e que a gente possa ocupar um
espaço importante no mercado internacional”.
Gigantes do etanol
O setor do
etanol é relativamente novo, mas não menos atraente que outros setores
industriais mais tradicionais. As fantásticas potencialidades já existentes, mas
multiplicadas pela recente medida da EPA dos Estados Unidos, aumentam
ainda mais os desejos de investimentos tanto nacionais como estrangeiros.
Em
outro momento, já apontávamos para o fato de que o agronegócio é um dos
filões de maior apoio do BNDES, no contexto de formação de um novo
capitalismo brasileiro. Particularmente no financiamento de usinas para a
produção do etanol, o banco vem investindo pesadamente. Apenas em 2005 e
2006, o Banco desembolsou R$ 3,3 bilhões para financiar a construção de usinas,
plantio de cana e projetos de co-geração de energia elétrica. Na ocasião, dados
revelavam que estavam em construção no Brasil 100 novas usinas de álcool, com
investimentos de R$ 10 bilhões, muitas delas interrompidas com a crise
econômica. Para 2010, o BNDES identificou 89 projetos de novas unidades,
das quais 51 já estão em andamento.
Há hoje no
Brasil 438 usinas nas mãos de 200 grupos econômicos. Mas, a mesma tendência
sentida em outros setores da economia brasileira também se faz sentir aqui: a
concentração em torno de menor número de empresas, mas com tamanhos e poder
econômico maiores.
Quase
simultaneamente ao anúncio da medida norte-americana são anunciadas várias
mega-fusões no setor sucroalcooleiro. Primeiramente, a
joint venture entre a Shell e a Cosan, a maior produtora
brasileira de etanol. Passado meio mês, a ETH Bioenergia, empresa do
grupo Odebrecht, anunciou a compra da Companhia Brasileira de Energia
Renovável (Brenco). Com a operação, nasceu uma das maiores produtoras
de etanol do mundo, com capacidade inicial de três bilhões de litros/ano e
geração de 2.500 gigawatts-hora (GWh) de energia a partir da queima do bagaço de
cana. E tudo indica que a onda de
aquisições e fusões deve continuar. A
nova ETH tornou-se uma empresa de 7 bilhões de reais e passou a estar
na mira de outra petroleira, a Petrobras, interessada em ter uma fatia da
nova empresa do ramo sucroalcooleiro.
Há,
portanto, uma confluência de interesses em jogo. O governo investe pesadamente
dinheiro público, via
BNDES, forja – dessa e de outras maneiras – um capitalismo composto por
grandes empresas nacionais aliadas a investidores estrangeiros, em condições de
competir globalmente, com investimentos tanto no Brasil como no exterior.
“Assistimos
uma concentração sem precedentes das cadeias com maior poder corporativo no
mundo: energia e agronegócio, com empresas petroleiras como a Shell, a
BP (antiga British Petroleum), Chevron, Petrobrás,
aliadas com a Cargill, ADM, Louis Dreyfus, Bunge,
passando pela empresas de biotecnologia e agrotóxicos como a Novozymes,
gigantes como a Monsanto, a Syngenta e novas como a Amyris.
Apesar disso, a imagem que querem ter é de ‘renováveis e alternativos’”, analisa
Camila Moreno, da ONG Terra de Direitos, em entrevista
especial à IHU On-line.
Próximo desafio: criar mercado para o etanol
Mas, o
sucesso do setor nem por isso está garantido e solidificado. Um dos próximos
passos, certamente, é derrubar as barreiras americanas à importação do etanol
brasileiro, para o que a mega-fusão da Cosan com a americana Shell
pode ajudar. A Shell, imagina-se, fará
lobby junto ao governo norte-americano para reduzir suas tarifas sobre
as importações de agrocombustíveis. E é para isso que o lobby do
etanol brasileiro está trabalhando.
Mas, não
basta convencer o mundo de que o etanol é menos poluente e renovável que a
matriz fóssil. A batalha mais profícua no médio e longo prazo se dará em outro
território: criar um mercado mundial para o etanol. É insuficiente o Brasil
criar uma expectativa mundial e não conseguir atender a demanda. Cairia em
descrédito e poderia representar um retrocesso.
Assim,
paralelamente, os empresários e o governo brasileiro devem convencer outros
países – na
América Latina e na África – a serem
produtores de etanol. O produto precisa criar escala.
As viagens
do presidente Lula à América Central –
Honduras, Panamá, Jamaica e Nicarágua – e quatro
países escandinavos (Finlândia, Suécia, Dinamarca,
Noruega) e à Espanha –, ao longo de 2007, encaixaram-se neste horizonte:
convencer o mundo que o etanol brasileiro é uma alternativa energética mais
limpa e de futuro. Entretanto, uma diferença no tema é percebida entre as duas
viagens. Na viagem aos países nórdicos, o acento estava no convencimento para
que se tornassem
consumidores da commodity nacional, ao passo que na América
Central o foco recaiu sobre a colaboração na criação de uma logística que
facilitasse a exportação do etanol brasileiro aos Estados Unidos e também
convencê-los a se tornarem, também eles, produtores deste insumo.
Novamente, é
uma iniciativa que conta com o apoio e incentivo público. "Para formar um
mercado internacional, é preciso ter mais países ofertantes. Só assim vamos
desenvolver um mercado futuro, com negociações em bolsa", diz
Alexandre Strapasson, coordenador do Departamento de Cana-de-Açúcar e
Agroenergia do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).
É por sua vontade de defender as empresas brasileiras e vender os produtos
nacionais no mercado internacional que o presidente Lula já foi chamado
de “caixeiro-viajante”.
Questões sociais, econômicas e ambientais não calam
No afã de
vender um produto ecologicamente correto, as questões sociais, econômicas e
ambientais produzidas pelo agronegócio são minoradas. As denúncias de trabalho
escravo ou do trabalho realizado em condições extremamente precárias e subumanas
ou de maus tratos, assim como o desrespeito ao meio ambiente e aos povos
indígenas estão ligadas à expansão agropecuária em nosso país. Além disso, estão
presentes nos setores mais modernos do capitalismo agrário brasileiro e
envolvem, por isso mesmo, o setor sucroalcooleiro.
Além do
mais, a indústria dos agrocombustíveis é tributária da segunda revolução
industrial caracterizada pela concentração, centralização e gigantismo que
acompanha tanto os processos de produção como de distribuição, e por sua visão
de mundo redutora ao econômico, no qual as questões ambientais e sociais
propriamente não entram. De forma mais “suave”, os agrocombustíveis seguem
trilhando no caminho aberto pela revolução industrial sem conseguir superá-lo.
No dizer de
Jeremy Rifkin, ainda “somos prisioneiros da tradição iluminista, do
pensamento de Locke e de Adam Smith: aquele que nos representa o
homem como um ser racional, materialista, individualista, utilitarista. Se
continuarmos usando esses instrumentos intelectuais do século XVIII, estamos
verdadeiramente condenados. Dentro desse quadro cultural é impossível que seis
bilhões de pessoas enfrentem a escassez de recursos naturais”, alerta.
Rifkin
propõe que a revolução da internet – descentralizada, cooperativa – pode servir
de parâmetro para o modelo energético do futuro: “As novas tecnologias da
comunicação convergem com as energias renováveis. É o que eu chamo de energia
distribuída ou difusa. Porque as fontes renováveis – sol, vento, energia
biotérmica, biomassa de rejeitos – encontram-se em nosso meio, igualmente
repartidas em cada metro quadrado da superfície terrestre”. A “energia difusa”
significa “converter toda casa individual, toda mansão, em uma pequena central
energética que usa o sol, o vento, os rejeitos, estocando-os e
redistribuindo-os. Significa que a energia não consumida para as próprias
necessidades será repartida segundo uma lógica de cooperação e de
solidariedade”.
Assim, na
linha da superação da visão estritamente economicista de energia é preciso
sempre de novo se perguntar:
para quê e para quem servem as energias produzidas tanto pelas gigantescas
hidrelétricas que rasgam e banham a Amazônia, como a gigantesca indústria de
produção e distribuição de etanol? Ao mesmo tempo, o desafio é de buscar
alternativas energéticas assentadas sobre outra base econômica e social: a
ecoeconomia.
Conjuntura da Semana em frases
Desastre
“O
neoliberalismo, se não morreu, está muito mal. Foi uma ideologia que uniu
rentistas a uma tecnoburocracia de jovens brilhantes da área financeira, com
phds mas principalmente com mbas nos EUA, criando inovações financeiras muito
inteligentes e muito espertas, que permitirão aos rentistas aumentar os seus
rendimentos em três ou quatro vezes nos últimos trinta anos. Foram os anos
neoliberais, entre 1978 e 2008, mas o desastre foi muito grande” –
Luiz Carlos Bresser-Pereira, economista – Carta Capital, 05-03-2010.
Neoliberalismo morto
“O fracasso
do neoliberalismo e a criação de riqueza financeira fictícia, com a
multiplicação por três ou quatro vezes dos ganhos dos rentistas, tudo isso deu
um bumerangue. Acho que o discurso neoliberal está morto” –
Luiz Carlos Bresser-Pereira, economista – Carta Capital, 05-03-2010.
Malvinas
"Qual é a
explicação geográfica, política e econômica de a Inglaterra estar na Malvinas?"
–
Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República – O Estado de S. Paulo,
14-02-2010.
Na ONU?
“A mais de
uma pessoa Lula disse que foi sondado para se candidatar a secretário-geral da
ONU em 2011” –
coluna Radar – Veja, 10-03-2010.
Lula,
Dilma e Serra
“Lula
repetiu a fórmula de Fernando Henrique. Ganha com Dilma. Não perde com Serra. O
PT recusou o convite de Itamar Franco para fazer parte do seu governo — mas Lula
não se recusou a indicar Serra para ministro da Fazenda. Itamar conversou com
Serra duas vezes. Achou-o com mais pinta de presidente do que de ministro” –
Ricardo Noblat, jornalista – O Globo, 08-03-2010.
Risco
"O risco de surpresa hoje vem do PSDB, e não do PT" –
Roberto Padovani, do banco West LB, sobre o fato de Dilma Rousseff ter vindo
a público para dizer que manteria o tripé básico da política econômica e Serra,
ainda não - Dinheiro, 10-03-2010.
Água e
vinho
"A
candidatura é inconveniente para o partido. O PSB defende a jornada de 40 horas,
Skaf é contra. Como fica?" -
Luiza Erundina, deputada federal – PSB-SP – afirmando que não subirá no
palanque de Paulo Skaf, presidente da FIESP, candidato pelo PSB – O Estado de
S. Paulo, 04-03-2010.
Marina e
HH
“Eu e
Heloísa (Helena) fizemos esforço para estarmos juntas, somos amigas, temos uma
relação de respeito, mas sabíamos que seria difícil e, infelizmente, não
prosperou uma aliança formal, mas isso não significa que não vamos estar juntas”
–
Marina Silva, senadora – PV-AC – O Globo, 27-02-2010.
Jardinagem
"As vezes, é
preferível ser uma relva no campo do que um bonsai no palácio" –
Marina Silva, senadora – PV-AC, sobre a decisão de abdicar da cadeira
de senadora e concorrer à Presidência – Folha de S. Paulo, 23-02-2010.
E o DEM,
hein?
“Parece que
o DEM vai mudar de nome para melhorar a imagem. A preferência é por algo novo e
moderno. PFL, por exemplo” –
Ancelmo Gois, jornalista – O Globo, 23-02-2010.
Não
confunda
"Existe um
Arruda do DEM e um Arruda do bem!" -
Plínio de Arruda Sampaio, um dos três pré-candidatos do PSOL à Presidência,
circulando ontem pelo Congresso – Folha de S. Paulo, 04-03-2010.
PT e PSOL
"A menos que
pretenda se entender com o PSOL, o PT não tem opção mais à esquerda do que a
aliança com o PMDB” -
Geddel Vieira Lima, ministro da Integração Nacional – PMDB-BA, sobre
entrevista na qual o cientista político e ex-porta-voz de Lula André Singer
defende que, dado o "baixo teor programático" do PMDB, seria melhor para o PT
buscar primeiro aliança com partidos como o PSB – Folha de S. Paulo,
23-02-2010.
BB,
graças a Deus!
"Graças a
Deus, o Banco do Brasil não foi privatizado” –
Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República – O Estado de S. Paulo,
03-03-2010.
Trabalho
duro!
“Há que
deixar claro que não recebi uma bolada de R$ 620 mil, como parte da imprensa
insiste em deixar no ar, mas R$ 20 mil mensais, durante 31 meses de trabalho
prestado, o que demandou viagens, reuniões e muita preparação. É trabalho, não é
dinheiro fácil” -
José Dirceu, ex-ministro Chefe da Casa Civil, no texto publicado ontem em
seu blog, sob o título "O caso Eletronet: um ponto final” – O Globo,
03-03-2010.
Lenin
"Você tem de
descentralizar não só braços. Tem de descentralizar cabeças. O (Vladimir) Lenin
(líder da Revolução Russa) tinha uma frase que dizia mais ou menos o seguinte:
"Vamos centralizar o pensamento, o comitê central e descentralizar o braço."
Toda campanha do leninismo era aquela gente com braço forte. Era a
descentralização da execução. Hoje, com as pessoas crescendo, as pessoas
universitárias, há necessidade de descentralizar também a capacidade cerebral” -
Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do Bradesco – O Estado de S. Paulo,
08-03-2010.
Dor que
não passa
“Passados 16
meses, Blumenau tem ainda 1.200 desabrigados das enchentes vivendo em galpões. E
as duas galerias de água que romperam e alagaram a cidade continuam à espera de
reformas. E não é só. Dos R$ 215 milhões esperados para obras urgentes, só
chegaram à cidade R$ 24,6 milhões” –
Sonia Racy, jornalista – O Estado de S. Paulo, 28-02-2010.
Subdesenvolvido
"É falsa
essa imagem que os governos e empresários chilenos venderam ao mundo, de que
este era um país equivalente aos tigres asiáticos. Nós não passamos de um país
subdesenvolvido. Isso agora ficou claro para todos os chilenos e para o mundo.
Nem no Haiti as pessoas se comportaram assim” -
Cláudio Missareli, médico chileno - O Estado de S. Paulo, 07-03-2010.
Todos
roubaram
"Todos
roubaram de todos, não foi uma questão de classe social. O vandalismo foi
protagonizado por todos" -
Jacqueline van Rysselberghe, prefeita de Concepión, do partido de direita
UDI - O Estado de S. Paulo, 07-03-2010
Loucos
“Mas desta
vez, tudo foi diferente. Parecem todos loucos. Não sei como essa sociedade vai
se recompor nos próximos meses, quando vizinhos que roubaram vizinhos terão que
manter novamente uma relação social" -
Reigner Salazar, engenheiro elétrico, de 80 anos, sobrevivente dos três
piores terremotos da história chilena (1939, 1960 e o da semana passada - O
Estado de S. Paulo, 07-03-2010.
Celular
"Acho que no
Chile ninguém nunca mais vai usar o telefone no modo de vibração [cujo ruído
lembra o de um terremoto médio, como aquele que acabávamos de vivenciar]" -
Carlos Canales, estudante de medicina, chileno – Folha de S. Paulo,
06-03-2010.
Frango
“Conheço
muitos ambientalistas que acham que frango nasceu na prateleira de supermercado”
–
Reinhold Stephanes, ministro da Agricultura – O Globo, 28-02-2010.
Cadeia
alimentar
"Tem muito
ruralista que acha que bioma é um tipo de câncer e cadeia alimentar é para
prender o MST” –
Carlos Minc, ministro do Meio Ambiente – O Globo, 28-02-2010.
Rua e
academia
“Vai longe o tempo em que as mulheres desciam às ruas. Hoje, chega a doer
imaginar que a maior parte de nós passa o tempo lutando contra a balança, nas
academias” –
Mary Del Priore, historiadora, IstoÉ, 10-03-2010.
Dunga e
Paris Hilton
“O que é
mais "imoral" na TV? A socialite Paris Hilton se esfregando numa garrafa de
cerveja ou o treinador da seleção brasileira, Dunga, batendo no peito e se
dizendo "brahmeiro"? A meu ver, Dunga. Mas Paris Hilton é que foi censurada” –
Ruy Castro, jornalista – Folha de S. Paulo, 08-03-2010.